Elsa e Fred

“A noção de felicidade na sociedade atual acaba a tornando inalcançável. Quanto mais busca-se o mundo ideal, mais perde-se a satisfação do real”. É com essa introdução que inicio minha crítica ao original Elsa e Fred, de 2005, comparando como o ideal de todos nós se subverte com a dura realidade de uma velhinha no fim de sua vida que insiste em viver a despeito das imperfeições em sua volta. O remake americano, apesar dos ótimos esforços de Shirley MacLaine e Christopher Plummer, é sabotado por uma direção que tenta justamente fazer o contrário do que o espírito do filme ordena.

O diretor Michael Radford aparentemente se esquece das habilidades demonstradas em O Mercador de Veneza e 1984 para entregar um trabalho higienizado através da demarcação de cenas em excesso. Do lado do roteiro uma curiosidade interessante é que os créditos são diferentes com o original, apesar de estarmos falando de praticamente o mesmo filme agora sem legendas para o público norte-americano. Se há alguma mudança significativa nos diálogos é a sua anti-naturalidade em alguns momentos-chave onde a personalidade de Fred se altera da água para o vinho (incluindo sua expressão ranzinza). Até a trilha sonora é equivocadamente inserida, nunca sabendo ao certo se estamos assistindo à uma comédia, um drama ou uma minissérie. Em um momento particularmente tocante durante uma viagem, ouve-se uma trilha incidental leve de tema de seriado.

Ao assistir ao re-Elsa & Fred, nota-se obviamente que as coisas parecem fora do lugar, mas não é esse caos gostoso da vida que é emulada em seu original. É falta de jeito com as nuanças de uma história dura, mas com personagens leves.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-01-02 imdb