Elysium

Com o mesmo diretor do ótimo Distrito 9, poderíamos esperar mais uma ficção científica que honre o gênero, apresentando um futuro distópico que remeta diretamente a questões sociais do mundo atual. De certa forma, isso acontece, abordando mais uma vez o abismo existente entre pobres e ricos em um mundo pós-crise. No cenário do filme, a superpopulação/superpoluição/supercaos fazem com que a elite econômica do mundo se reúna e se isole em uma espécie de estação espacial que reproduz com fidelidade os nobres bairros de subúrbio da hoje (2150 e tra-lá-lá) caótica Los Angeles (que é a tal Elysium do título).

A história gira em torno de Max (Matt Damon), que vemos inicialmente como um garoto e que promete à sua amiga que quando crescer os levará para Elysium, que é possível enxergar a olho nu como um círculo brilhante no céu. O tempo passa e Max se torna operário de uma fábrica de andróides enquanto Frey (Alice Braga) é uma doutora do precário hospital da cidade. Há tentativas constantes de adentrar a superfície de Elysium dirigida por Spider (Wagner Moura), um fora-da-lei que possui seu arsenal tecnológico e que ganha dinheiro orquestrando missões quase que suicidas, pois a inescrupulosa supervisora da segurança de Elysium (Jodie Foster) não exita em utilizar meios escusos para abater os imigrantes clandestinos, usando para isso um outro fora-da-lei, Kruger (Sharlto Copley), que, dotado de um sotaque inglês-europeu que mistura elementos alemães/russos (Laranja Mecânica?), aparentemente gosta de tudo aquilo apenas por uma espécie de prazer sádico da “guerra”.

Esse pano de fundo tão bem introduzido aos poucos se desmancha em dúvidas. Ao vermos que um dos grandes anseios dos imigrantes é ter acesso ao sistema de saúde de Elysium, que cura aparentemente qualquer tipo de doença humana (de paralisia a câncer), começam a surgir questões de quais as motivações em oprimir os habitantes da Terra para uma sociedade tão evoluída tecnologicamente. Da mesma forma, os ricaços de Elysium sequer precisam de servos humanos, pois seus dróides conseguem tomar conta do recado de servi-los nos mesmos moldes dos contos de Isaac Asimov, sem quaisquer restrições (exceto que esses robôs respeitam apenas os considerados cidadãos de Elysium como humanos dignos de não serem mortos).

No entanto, a ação desenfreada da primeira parte do filme dá pouco espaço para reflexões. Desenfreada, mas muito bem orquestrada, e que não exista em buscar momentos de pura crueldade para benefício do drama que sofre para coexistir com todo o aparato futurista. Os ataques da equipe liderada por Spider lembra muito a cinegrafia atual que aborda os ataques terroristas, o que não é nenhuma novidade senão a exposição que essas sequências apresentam. Mesmo assim, Elysium se submete a um tratamento estilizado, desde sua direção de arte às atuações, e possui um formato que beira o anime. Essa dualidade prejudica muitas vezes a já citada tentativa de dramatização em excesso.

E por falar em excesso, as repetidas menções que o diretor Neill Blomkamp faz ao passado de Max para reafirmar seu sonho de um futuro melhor é tediosa desde a primeira até a octogésima vez. Só perde para momentos como o da “história do hipopótamo”, que ganha pela cafonisse e pela tentativa desesperada de imprimir um pouco de humanidade em um filme estilizado demais para funcionar como drama.

Tentando homenagear todos os filmes que compartilham pouco ou muito do enredo (Matrix, Aliens, filmes Favela Pop como Cidade de Deus, etc), não funciona exatamente por não estar à altura de suas comparações. Da metade para o final, o filme sai dos trilhos por justamente diminuir seu ritmo e nos fazer pensar que um futuro naqueles moldes tem muito que ser desenvolvido para parecer mais real. Fora os esforços de Jodie Foster e Alice Braga neste papel, Elysium carece de um universo complexo o suficiente para impactar não apenas com os momentos “faça-me chorar”, mas principalmente pelo destino de seus semi-dimensionais personagens.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2013-09-21. Elysium. Elysium (USA, 2013). Dirigido por Neill Blomkamp. Escrito por Neill Blomkamp. Com Matt Damon, Jodie Foster, Sharlto Copley, Alice Braga, Diego Luna, Wagner Moura, William Fichtner, Brandon Auret, Josh Blacker. imdb