Em Busca de Fellini

2017/11/23

Federico Fellini é um diretor italiano que navega bem entre o realismo e a fantasia. Conseguindo ignorar um pouco as estritas regras roteirísticas de Hollywood e ao mesmo tempo ignorar o tom despretensioso das produções europeias, Fellini navega entre os dois, ou entre todos, voando em altura média, de vez em quando encostando seus pés no chão, e muitas vezes se elevando acima de si mesmo, questionando nossa existência e a existência das emoções humanas em torno de uma vida cheia de ilusões que, nas mãos de um autor habilidoso, se mostram mais reais do que aquilo que chamamos de vida real.

Curiosamente este filme-homenagem evita pisar no chão justamente para evocar o lado mais autoral do diretor italiano: a fantasia. Dessa forma, o projeto de Taron Lexton, que conta uma história, de acordo com os letreiros iniciais, “baseado levemente em fatos reais”, parece preferir sempre se situar no “levemente”.

A história é contada pelos olhos de Lucy, encarnada pela belíssima Ksenia Solo e seus olhos azuis, seus cachinhos dourados e sua roupa listrada. Ela foi criada como uma princesa e não conhece muito da vida real. É até curioso que a primeira coisa que a fascina na cidade grande seja um festival de Federico Fellini, onde ela conhece a obra do autor, assiste várias vezes aos principais de seus filmes (os indicados ao Oscar, claro) e vai, como o título sugere, em busca dele. Sua criação, sua mãe e sua tia são um pano de fundo mal costurado, mas que graças à fotografia de Kevin Garrison, se transforma em uma viagem sensorial por um conto de fadas.

Mas é na Itália, essa belíssima Itália fotografada por Garrison, que o filme brilha. Cheio de personagens inusitados e locações famosas dos filmes de Fellini, é óbvio que a construção do filme, o uso da câmera, dos ângulos, da história e de tudo mais que gira em torno de Lucy é uma grande homenagem, que nem tenta se adaptar aos dias de hoje. O que pode ser um perigo. Seria Fellini hoje obsoleto? Bom, na América com certeza ainda é um grande desconhecido, apesar de uns gatos pingados o venerarem. De certa forma, este filme pode servir de introdução a um mundo bem desconhecido de Hollywood.

Falado em sua maioria em inglês, a língua italiana é apenas uma curiosidade, pois cada italiano que Lucy encontra pelo caminho sabe falar inglês americano perfeitamente. O que não chega a ser um grande problema. É um filme sobre Fellini. Esqueçamos um pouco da lógica por um momento.

O filme em si tem uma alma sonhadora, e as tomadas nos levam facilmente. É um filme fofo. Gostoso de assistir, independente do que você acha sobre Fellini. É a mágica do sonho acordado do cinema. Pode não ser o melhor dos sonhos para a arte cinematográfica. Mas tem seu charme. E suas coincidências. E seu jogo metalinguístico. O que abre a grande questão: onde estará hoje em dia o grande Fellini de nossos tempo? Existirá espaço para um?

★★★☆☆ In Search of Fellini. USA, 2017. Direction: Taron Lexton. Script: Nancy Cartwright. Peter Kjenaas. Cast: Maria Bello (Claire). Ksenia Solo (Lucy). Mary Lynn Rajskub (Kerri). Barbara Bouchet (Hostess). Beth Riesgraf (Sylvia). David O'Donnell (Robert). Nancy Cartwright (Cosima). Andrea Osvárt (Cabiria). Kim Evans (Catholic School Girl). Edition: K. Spencer Jones. Alexa Vier. Cinematography: Kevin Garrison. Soundtrack: David Campbell. Runtime: 93. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Adventure. Category: movies Tags: cabine

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