Em Nome do Pai

Em Nome do Pai é daquelas pérolas baseadas em fatos reais que funciona pelo emocional, mas também é um trabalho intimista que adentra o suficiente no lamaçal da “justiça” estatal para conseguir identificar o que critica sem desmerecer nossa inteligência.

Conta a história absurda (mas verídica) de Gerry Conlon, um homem condenado erroneamente por ser um dos terroristas responsáveis pelo maior atentado em solo britânico desde a Segunda Guerra. Ele se baseia no romance autobiográfico do próprio Conlon, o que poderia querer dizer um texto longo e chato sobre o psicológico de seu protagonista, mas o roteiro de Terry George e do diretor Jim Sheridan estipula uma linha de raciocínio fixa e tensa através da atuação ímpar de Daniel Day-Lewis (com quem o diretor trabalhou em Meu Pé Esquerdo) e de sua relação com o pai, Giuseppe (Pete Postlethwaite, um suporte inestimável).

A passagem do tempo no filme é capenga. O filme é curto para isso. No entanto, as mudanças psicológicas que ocorrem com seus personagens funciona, e a facilidade com que Daniel Day-Lewis consegue carregar uma persona dúbia, um anti-herói desfigurado pelo trauma de uma vida nada fácil, aliado à visão autoritária e ardilosa dos representantes do governo, dispostos a tudo para manter a ilusão de ordem frente às revoltas nacionalistas irlandesas.

O papel do pai no filme não está só no título, mas tem valor simbólico. É inimaginável o destino desse personagem na vida real, e revoltante em todos os aspectos sua peregrinação por justiça. É seu trapo branco erguida no começo do filme para salvar o filho que se mantém simbolicamente erguido por quinze anos seguidos, sem atirar nenhuma bala. Pete Postlethwaite faz um sujeito convicto de suas ações, mas incerto do mundo que vive, cuja noção de certo e errado se desmorona diante de seus olhos.

Com dois gigantes representando pai e filho, Emma Thompson não tem muito tempo de tela, e vira uma mera figurante de luxo que consegue unir o emocional ao racional, e fazer parte da identificação do espectador com a resolução daquele problema que parece insolúvel. Sua última cena representa isso, e o motivo de estar lá.

E, por fim, a direção de Jim Sheridan é precisa em suportar uma história que dificilmente seria rodada não como um dramalhão, mas um filme político. Sheridan consegue os dois, e torna simples de entender como violência é um pré-requisito de qualquer estado. Justiça é apenas um desses enfeites que são arrancados da parede conforme a conveniência do momento.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2016-02-27. Em Nome do Pai. In the Name of the Father (Ireland, 1993). Dirigido por Jim Sheridan. Escrito por Gerry Conlon, Terry George, Jim Sheridan. Com Alison Crosbie, Daniel Day-Lewis, Philip King, Emma Thompson, Nye Heron, Anthony Brophy, Frankie McCafferty, Paul Warriner, Julian Walsh. imdb