Embriagado de Amor

Mar 7, 2016

Imagens

Paul Thomas Anderson é um diretor peculiar, tanto quanto Sidney Lumet. Ambos fizeram trabalhos com temas variados, mas se entregaram a cada projeto como se cada um deles fosse sua obra-prima. Nenhum dos dois pode ser “acusado” de fazer Cinema autoral (aquele que pelo filme você já sabe quem é o diretor).

Porém, PTA – esse é o diminutivo do nome do diretor para os íntimos – tem, sim, sua marca registrada: a expressividade audio-visual extrapolada. Quando falamos de Magnólia ou Boogie Nights se torna dispensável apontar onde há o exagero narrativo. No entanto, mesmo filmes mais “sóbrios”, como Sangue Negro ou O Mestre, possuem, aqui e ali, aquela nota em sustenido e que destoa de todo o resto. destoa no bom sentido. Acho que uma palavra melhor seria “arrisca”. PTA não parece ter medo de arriscar. E é essa característica isolada que, aplicada a diretores talentosos como Anderson, a que mais gera conteúdo novo e provocante na sétima arte.

Com Embriagados de Amor, uma comédia romântica com Adam Sandler, não poderia ser diferente. E só de ouvir as palavras “comédia romântica” e “Adam Sandler” juntas provavelmente o espectador mais atento já deve imaginar do que se trata, baseado nas dezenas de filmes do gênero que Sandler produz com seus amigos todos os anos. No entanto, peço sempre para as pessoas prestarem atenção ao diretor que comanda a obra. Nos enlatados de Sandler, quase sempre o diretor também é um amigo do ator e cujos projetos nunca saíram da mesmice.

Mas essa é uma obra atípica. PTA está no comando, e é por isso que nos primeiros minutos vemos o personagem de Sandler de terno azul, sozinho em um galpão, para logo em seguida testemunhar um carro capotando e um pequeno órgão sendo despejado na rua. É por isso também que a trilha sonora e os aspectos de cena do filme mudam ao gosto da imaginação do protagonista. Esse é um filme que experimenta com o novo, sem dúvida, e muitas vezes talvez sem motivo.

Mas quem se importa se é justificável ou não? Estamos na mente de Adam Sandler como um introvertido meio esquizofrênico que frequentemente tem acessos de raiva causados principalmente pela sua onerosa convivência com as sete irmãs. Mentiroso compulsivo – já sabemos que é para escapar de situações que se sente desconfortável – Sandler não demonstra competência nenhuma em atuar, mas por outro lado se mostra uma escolha certeira para o personagem: abobalhado, tropeçando e demonstrando uma limitação em coordenar mais de uma ação ao mesmo tempo.

Outras pessoas tropeçam em Embriagado de Amor, e é isso que está em jogo nesse filme. Há uma realidade alternativa aí esperando para ser desvendada. As cores primárias pintam cada cena, mas é o que está em contra-luz, escuro, que realmente importa. Até assistir esse filme, eu acharia particularmente difícil ver um ator como Sandler protagonizar uma cena de amor realmente emocionante. Agora, depois de ver o labirinto visual que PTA cria para ele quando ele precisa desesperadamente voltar para o apartamento de sua garota, podemos dizer que nunca é tarde para se encontrar o diretor certo.

Wanderley Caloni, 2016-03-07. Embriagado de Amor. Punch-Drunk Love (USA, 2002). Dirigido por Paul Thomas Anderson. Escrito por Paul Thomas Anderson. Com Adam Sandler, Jason Andrews, Don McManus, Emily Watson, Luis Guzmán, David Schrempf, Seann Conway, Rico Bueno, Hazel Mailloux. IMDB.