Encantada

Encantada inicia com um desenho de conto de fadas genérico, cuja introdução apenas serve para nos habituarmos com aquele mundo e a sua dinâmica. A largura da tela diminui sutilmente e faz-se a transição para o mundo real, mais amplo, na própria visão da princesa Giselle.

É preciso dar créditos às verossímeis interpretações de Amy Adams (O Vencedor, Os Muppets), James Marsden (H.O.P. - Rebeldes sem Páscoa) e Timothy Spall (da série Harry Potter), que caracterizam perfeitamente suas contrapartes em desenho (ou vice-versa), além, é claro, de efeitos extremamente eficientes com os animais, que oferecem um encantamento adicional necessário para que compremos, de fato, a história que vai se passar.

Porém, a grande virtude da direção é abraçar sem reservas o tema inicial, recriando sem tornar clichê cenas clássicas do imaginário Disney, como em um inspiradíssimo baile que consegue unir composições tão distintas como A Bela e a Fera, Branca de Neve e Cinderela sem soar banal.

Como consequência desse comprometimento temos uma fotografia, direção de arte e figurino no mesmo compasso inspirador dos exageros do gênero. Por isso não nos incomodamos, por exemplo, com o óbvio contraste dele (e pessoas do seu mundo) sempre de preto enquanto ela, os animais e as pessoas que acompanham suas músicas sempre com cores “gritantes”, no mesmo quadro.

Contudo, não se pode falar o mesmo do roteiro, que manipula a história sem a mesma doce ingenuidade de sua protagonista, criando reviravoltas bem arquitetadas, mas que no fundo revelam seu caráter maniqueísta típico das produções live action da Disney. Nesse sentido, não é possível abraçar sem reservas o destino de todos os personagens, mesmo se tratando de um conto de fadas. Algumas de suas decisões mais absurdas (facilmente detectáveis, desnecessário revelar), embora soluções aparentemente obrigatórias acabam por enfraquecer a trama.

O que não se pode dizer do sistema de pistas e recompensas com que o filme sabiamente salpica em torno dessas mesmas cenas.

Dessa forma, podemos dizer que o esforço narrativo sobre o absurdo da história, assim como a eterna batalha entre o bem e o mal, prevalece.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-06-14 imdb