Entrando Numa Roubada

Este é o primeiro filme dirigido por André Moraes, compositor que esteve envolvido naquele desastre chamado Assalto ao Banco Central. Aqui ele dirige, escreve e co-produz uma suposta comédia que se traveste de road-movie com uma dramatização que torna o resultado final meio bipolar.

Sejamos honestos: o filme é engraçado em algumas partes graças ao competente elenco que possui nada menos que a gostosa Deborah Secco, o flexível Lúcio Mauro Filho, os convincentes Júlio Andrade e Bruno Torres, o interesse amoroso periférico Ana Carolina Machado e, por fim, o comediante de stand up Marcos Veras (Porta dos Fundos). No entanto, ele se torna dramático e tenso graças à competente edição de Willem Dias, que consegue em um filme de baixo orçamento realizar o milagre da multiplicação dos frames frenéticos.

Possivelmente influenciado pelo thriller mais do que frenético (e bonitinho) 2 Coelhos, o recorte de situações com referências pop – incluindo o faroeste de Sergio Leone – e a fotografia mais que saturada de André Lavenére conseguem convergir uma comédia para uma história de vingança com uma competência invejável se comparada com o resto do filme.

E o resto, um roteiro confuso que tenta se fazer superior através de uma narrativa em off do personagem onisciente de Júlio Andrade que envolve todos os personagens e mais uns extras, mas que no final se revela maior do que o próprio filme, que termina mais ou menos na metade. Essa talvez tenha sido a influência pior copiada de Afonso Poyart (que dirige e edita 2 Coelhos com a ajuda de Lucas Gonzaga), e a que se revela a maior decepção.

E é uma decepção no sentido de não corresponder às ótimas expectativas por trás da história instável que se apresenta no formato de vingança e um road movie acidental, gerando até uma cena memorável no deserto. Uma pena também que haja outra influência, essa menos gloriosa, no roteiro: a de Assalto ao Banco Central, um filme conhecido por copiar um thriller americano da década de 90 e entender que isso iria surpreender seu público. É com essa ingenuidade que lidamos no terceiro ato de Entrando em uma Roubada. Um filme cujo título pode até ser considerado metalinguístico ao verificarmos nos créditos inicias e finais como sendo fruto do roubo de recursos da Ancine, uma especialista em distribuir o dinheiro do povo para fabricar filmes não-requisitados.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2015-08-23 imdb