Entre Vinho e Vinagre

Wanderley Caloni, May 11, 2019

Entre Vinho e Vinagre, ou Wine Country, é uma versão alternativa de Sideways se ele fosse sobre mulheres de meia-idade e seus roteiristas soubesse de antemão que menosprezar uvas pode chacoalhar o mercado de vinhos. Você sabia que por causa que no filme estrelado por Paul Giamatti seu personagem destrata o Merlot por ser “fácil demais de beber”, elogia as qualidades do Pinot Noir e os preços dessas uvas na vida real despencam e disparam? Este é o “Sideways Effect” e este é o mundo do vinho, onde qualquer comentário subjetivo de um personagem fictício de um filme pode influenciar um mercado bilionário de gente rica e esnobe.

Mas dessa vez está tudo sob controle, pois a Netflix não cometeria essa gafe com os seus acionistas. Aliás, não apenas está sob controle como as mulheres deste filme viajam para o Vale de Napa, antro sagrado dos vinhos de qualidade americanos, e destratam toda essa frescura por trás de aromas, taninos, história da região e porcentagem de álcool. Ah, e pisam no solo sagrado de plantações de vinhos orgânicos (hilário). E aparentemente elas bebe litros de vinho e em vez de dormir em sono profundo elas ficam super-agitadas e começam a dançar. Não que eu queira algum realismo, cara Netflix, mas você está forçando a barra dos conhecedores do poder do tanino alcoolizado.

A diretora deste filme é Amy Poehler, a pedra fundacional de Parks And Recreation e cineasta wanna-be. Este é seu primeiro longa para o “cinema”. A Netflix lançou em alguns cinemas o filme para ganhar este título. Aliás, eles devem fazer isso com todos os títulos para ter a chance de ganhar prêmios. Há ainda um forte preconceito contra as plataformas de streaming pelo mundo esnobe da sétima arte. Assim como o Merlot.

Como diretora, Poehler é eficiente, mas ela pegou o roteiro errado. As roteiristas mulheres do sexo feminino Liz Cackowski e Emily Spivey fazem um trabalho encomendado. Elas são especialistas em comédia, como Vizinhos e Vizinhos 2 (ou Gênios do Crime), além de episódios do próprio Parks & Recreation. Mas aqui falta alma.

A história é básica demais para termos substância: velhas amigas por trabalharem em uma pizzaria juntas, elas milagrosamente conseguem se reunir para o aniversário de 50 anos de uma delas em um fim-de-semana inteiro. A personagem de Poehler (ela está no filme também) perdeu o emprego e está se empenhando um pouco demais no itinerário do passeio que ela planejou e as outras amigas, como pode-se prever, possuem seus próprios problemas e irão colocar para fora em algum momento depois de tanto vinho (ou colocar o vinho para fora, do jeito que elas bebem).

Os detalhes da narrativa não são preenchidos de forma a conhecermos melhor a personalidade de cada uma delas, mas simplesmente jogados em diálogos demais e comédia física de menos. OK, é um filme de mulherzinha, e nem as famosas TPMs do cinema estão aí presentes para um pouco de ação, pois elas já passaram dessa fase. Resta então eu me servir uma taça de vinho, degustar alguns queijos e continuar assistindo elas destratando o atendente do Artesa (não tive o prazer de visitar, mas o local é bonito). Aliás, o product placement aqui é bem sutil, quase imperceptível; vê-se apenas de longe o nome da vinícola, e não é um exagero como Mulheres ao Mar, que parece ter sido patrocinado inteiramente pela companhia do cruzeiro onde Ingrid Guimarães e suas amigas viajam.

Mas divago. Falando sobre a ausência da menstruação de mulheres quase no 5.0, só resta a carência sintomática como a exibida por Val (Paula Pell), que começa a conversar sobre a vida com qualquer estranho que encontre pelo caminho. Como a atendente do restaurante onde vão jantar, Jade (Maya Erskine), que se revela uma artista e que está fazendo sua primeira exibição justo naquele fim-de-semana para seus amigos millenials, em talvez um dos melhores momentos do longa em que a raiva de um grupo de mulheres mais velhas se torna não um ataque ao ego daqueles jovens, mas algo fascinante para ser analisado.

Mas eu gosto da maneira natural com que a história se desenvolve, mesmo que não pareça haver aí uma história. O filme é despretensioso em uma época que todo lançamento quer se tornar o hit do ano. Essa leveza na narrativa, que Poehler favorece colocando quadros mais longos e amplos, demonstrando que este não é um encontro tenso, mas agradável com alguma tensão. Há uma diferença. É interessante que a diretora Amy Poehler saiba distinguir e aplicar.

E ninguém falou mal de nenhuma uva específica. Meu diálogo favorito – porque é bobo – é este: - “este vinho é sensacional! como se chama?” - “vinho branco”.

Imagens e créditos no IMDB.
Entre Vinho e Vinagre ● Wine Country. EUA, 2019. Dirigido por Amy Poehler, escrito por Liz Cackowski, Emily Spivey, com Amy Poehler, Rachel Dratch, Ana Gasteyer, Maya Rudolph, Paula Pell, Emily Spivey, Jay Larson, Tina Fey e Maya Erskine. ● Nota: 3/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-05-11. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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