Equilibrium

May 8, 2016

Imagens

Equilibrium é um filme que parece sofrer do próprio efeito afetado de seus personagens, pertencentes a uma espécie de paródia de “1984” a respeito de um futuro distópico onde é proibido sentir. Se o sentir para os personagens é algo natural, transformar isso em linguagem cinematográfica é um desafio que o diretor/roteirista Kurt Wimmer topa conduzir, gerando no processo resultados mistos.

Especialista no roteiro em thrillers de ação (“O Vingador do Futuro”, “Salt”), Wimmer não consegue evitar transformar uma reflexão até que interessante sobre uma humanidade que teme sucumbir a uma quarta guerra mundial (sim, houve uma terceira) em um… thriller de ação. Vestindo Christian Bale como um padre mortal, o “alto-clero” dessa sociedade coletivizada menos como abelhas programadas geneticamente e mais como frutos de mais um delírio autoritário – e os símbolos dessa nova nação, lembrando na cor e no formato o nazismo, não poderia ser menos óbvio – é natural que cenas estilizadas surjam, fruto do treinamento militarizado e, ironicamente, individualizado do personagem de Bale.

Apresentando de maneira totalmente maniqueísta essa realidade, na forma de discursos e exposições nada naturais – como se fosse rotina na vida dessas pessoas reafirmar a mesma coisa todos os dias – a necessidade de não sentir é conseguida com uma espécie de droga que inibe a parte mais instintiva do ser humano. Dessa forma, apenas quem está no poder é que, naturalmente, irá conseguir sentir algo. Sim, sempre há alguém no poder, não seguindo as próprias regras que este impõe.

Christian Bale é o astro da vez, conseguindo transformar um personagem nada interessante em um ser enigmático, onde suas ações nunca são claras, mas se tornam ainda menos claras quando este decide, devido as circunstâncias, parar de tomar a tal droga. Com isso, surge um thriller de mistério, pois ser pego é algo tão inevitável nesse mundo que a tensão toda se desdobra em torno de quando será esse momento.

Aliás, nunca se sabe se a trilha sonora dramática remete à situação que a humanidade chegou para inibir seus próprios instintos, ou se é a dor interna do protagonista, dor essa representada lindamente em um momento e uma sequência onde simplesmente não consegue se livrar de um cachorro.

A seriedade com que o tema é tratado, toda a solenidade envolvida na trilha sonora, toda a sisudez nas formas geométricas que formam os ambientes internos e externos daquele mundo, todos os tons monocromáticos das roupas de seus habitantes, altamente impecáveis. Tudo isso não impede que o filme foque constantemente em brincar com a situação de uma forma completamente inapropriada, tentando inserir o humor onde é muito difícil encontrá-lo. Por conta disso, há bons momentos no filme, mas pouco se aproveita. Ainda assim, ele nunca deixa de ser interessante. Mesmo que tenhamos que passar pelas mesmas situações duas ou três vezes (incluindo aquele momento que Bale mata todos à volta).

No entanto, ao chegar no terceiro ato, o clichezão básico de passar por vários capangas necessariamente – para a ação se revelar melhor do que no resto do filme – soa tão clichê, que simplesmente desistimos de acompanhar o drama e passamos a apreciar o casamento do Tarantinesco e o Orweliano.

Interessante por suas ideias, que logo são deixadas de lado, e mais interessante pela beleza estética de suas cenas de luta, Equilibrium tenta instigar algo mais do que um thriller de ação, mas, assim como Vingador do Futuro (o remake), está mais focado em impressionar ativamente do que deixar o espectador respirar um pouco e ter algumas ideias de sua própria cabeça.

Wanderley Caloni, 2016-05-08. Equilibrium. Equilibrium (USA, 2002). Dirigido por Kurt Wimmer. Escrito por Kurt Wimmer. Com Christian Bale, Dominic Purcell, Sean Bean, Christian Kahrmann, John Keogh, Sean Pertwee, William Fichtner, Angus Macfadyen, David Barrash. IMDB.