Era Uma Vez Eu Verônica

Jan 10, 2013

Imagens

Cinema, Aspirinas e Urubus se tornava mais interessante à medida que prestávamos menos atenção à história e mais em seus personagens. Aqui, o diretor Marcelo Gomes repete a fórmula de maneira mais introspectiva ainda, acompanhando a vida de Verônica através quase apenas de seu gravador e seus pensamentos.

Encaramos o ponto de vista da garota a respeito de si mesma assim que ela sai para o mundo real, se dedicando como residente de seu curso de medicina em um hospital público. Mora apenas com seu velho pai, fã de vitrola e de seus discos antigos, e só existe uma coisa que parece tornar sua vida menos comum: o sexo sem restrições. Ou, no caso de Verônica, há uma restrição: ela é incapaz de sentir qualquer sentimento pelos seus casuais companheiros.

A forma com que o filme vai catando as pecinhas do quebra-cabeças que é a realidade da protagonista, através da repetição ad eternum de sua rotina, cria a cornucópia de realidade necessária para começarmos a enxergar o seu — se é que podemos chamar assim — problema. Seus pacientes acumulam doenças através de seus sintomas. Qual o sintoma de Verônica? Nada acontece para ela, e é justamente essa ausência de conflito, esse vazio gerado por não se encaixar em um mundo comum e milimetricamente realista (ajudados por uma fotografia e direção de arte que primam pelo natural e colaboram para a magia da imersão), que conseguem fazer-nos enxergar com uma lupa que o universo de um ser humano não se limita ao que todos esperam.

Tomemos o sexo como exemplo. Nunca deixa de ser sensual. Aqui fica até mais, com tanto realismo. Porém, a repetição aos poucos vai banalizando a experiência. Tudo que vai se repetindo parece fazer esgotar a magia. Logo vira lugar comum para nós, espectadores, assim como é para ela. Logo tudo converge para o nada: o sexo, a vida de médica, o vai-e-vem casa/serviço. O que não se esvai é esse conceito de felicidade de Verônica: estar livre, flutuando nas águas do mar, para ser o que quiser, e não o que esperarmos que seja.

A comparação com A Febre do Rato é inevitável: a mesma Recife vista pela mesma sensação de estranhamento vinda não da rotina, que não poderia ser mais ordinária, mas da ambição dos seus personagens. No caso aqui dA personagem, única, sozinha. Tão sozinha que se auto-diagnostica através dos seus pensamentos e gravações, meio como uma auto-cura ao escutar de dentro.

O grande conflito, talvez, seja entender que a Felicidade pode ser muitas coisas. Menos banal.

Wanderley Caloni, 2013-01-10. Era Uma Vez Eu Verônica. Era Uma Vez Eu, Verônica (Brazil, 2012). Dirigido por Marcelo Gomes. Escrito por Marcelo Gomes. Com Hermila Guedes, Júlio Rocha, João Miguel, Maeve Jinkings, Anthero Montenegro, W.J. Solha, Dandara Pagu, Karina Buhr, Madalena Accioly. IMDB.