Era Uma Vez na América

Apr 2, 2015

Imagens

Esse é o filme que o diretor Sergio Leone escolheu fazer em vez da proposta da Paramount para que ele dirigisse O Poderoso Chefão. Baseado no romance The Hoods, de Harry Grey, ele tentou convencê-lo a filmar por muito tempo, até que Grey cedeu após assistir a Trilogia dos Dólares (e gostar). Ambos passaram mais de uma década conversando para que o diretor conseguisse entender o espírito norte-americano através dos olhos do escritor. A longa produção gerou seis horas de filmagens (já editadas) que foram recusadas pela produtora e viraram 4 horas e meia, que em sua versão para os EUA foi ironicamente mutilada em 139 minutos. Este texto diz respeito à versão lançada em Cannes, com 229 minutos de duração, e facilmente encontrada no aplicativo Popcorn Time.

Antes é preciso dizer algo: a música-tema composta por Ennio Morricone (Cinema Paradiso) ficará teimosamente na sua cabeça por pelo menos alguns dias. Dane-se: é uma linda imersão no espaço/tempo de uma época histórica, e valeria a pena escutá-la mesmo se eu ficasse vinte anos cantarolando suas notas. Ela possui dois momentos. Um é lúdico e alegre, representado por uma gaita que um dos personagens infantis geralmente toca. Outro é nostálgico, parece querer nos fazer lembrar de todos os momentos, eras e fases da vida de David ‘Noodles’ Aaronson (Robert De Niro na maior parte do tempo, mas Scott Schutzman Tiler na importantíssima fase da infância). Esses momentos se confundem com a história americana, principalmente a lei seca, quando era proibido comercializar bebidas alcoólicas e gângsteres se aproveitavam do óbvio mercado paralelo para fazer rios de dinheiro.

A história se inicia durante uma caçada pela cabeça de Noodles após a morte de seus companheiros. A partir daí sua vida é contada menos em uma ordem cronológica e mais em uma ordem afetiva. Tanto que a sequência emblemática de um telefone tocando por 24 vezes atravessa o limite do tempo e acaba caindo sobre as costas de um homem consumido pela culpa. O ópio foi a droga escolhida para seu escapismo, em um bairro chinês incrustado na antiga Nova Iorque. Apesar de estarmos acompanhando sua história, o filme muitas vezes parece querer lançar questões mais universais, como pobreza, amizade, lealdade, moral e amadurece para questões mais filosóficas (especialmente em seus últimos momentos).

Sua passada pela estação avança rapidamente no tempo para o bar em um bairro decadente em que o antes torturado Fat Moe agora administra. Esse lugar tem muitas memórias, e na cabeça de Noodles uma linda, eterna memória: o tijolo solto do banheiro que permitia que ele visse a bela Deborah (Elizabeth McGovern/Jennifer Connelly) ensaiar seus passos de dança. A fotografia nesse momento, e particularmente em toda a fase “infantil” de Era Uma Vez na América é algo para se emoldurar na lembrança (algo que Morricone nos ajuda com sua música). Os cenários por onde se passa a história, aliás, são facilmente lembrados e se tornam memoráveis pela rápida transformação pelo qual parecem passar quando avançamos no tempo.

Naqueles “inocentes” anos 20, a amizade que se forma entre o mais velho e “experiente” Max e seu “tio” Noodles é o pilar em torno do qual aquela gangue-mirim irá se estabelecer e se manter por traços de lealdade que não vemos, mas sentimos. É como o velho Mike diz no recente episódio do seriado Better Call Saul: você pode ser um criminoso ou não, mas o seu caráter se molda pelas promessas cumpridas. Nesse sentido, além de apanharem juntos, passarem por um processo de profissionalização do crime, e por fim contracenarem a cena mais triste e emblemática de todo o filme (“eu escorreguei”), é o retorno de Noodles depois de 12 anos enclausurado e a reação de sua antiga gangue que se torna o momento mais tocante.

E a partir disso temos um intervalo no filme, onde a história depois dessa pausa tende a ser mais sombria, revelando (ou extrapolando) traços da personalidade de Max e Noodles que chocam ou quase chocam, mas incrivelmente nunca surpreendem. Tudo que esses dois fizerem, até o pior dos seus atos, será aceitável depois de os vermos “na ativa”. E é essa a característica mais peculiar desse filme: ele parece primeiro sugar nosso senso moral para depois conseguir humanizar seus heróis, e é por isso que a fase criança é tão importante. No mesmo estilo dos faroestes de Leone, esse é um bangue-bangue na cidade, mas os inimigos não são facilmente identificáveis. Não à toa: aqui os antagonistas não são relevantes. É uma reflexão sobre a própria passagem da vida. Talvez uma reflexão sobre nossa própria história como espécie. Foi um grande filme que você não se esqueceu quando criança, é um grande filme quando revemos através de nossos olhos adultos e será um grande filme quando entendermos que maldade vem engarrafada em cada porção de vida que cada um de nós recebe nessa breve passagem do tempo.

Wanderley Caloni, 2015-04-02. Era Uma Vez na América. Once Upon a Time in America (Italy, 1984). Dirigido por Sergio Leone. Escrito por Harry Grey, Leonardo Benvenuti, Piero De Bernardi, Enrico Medioli, Franco Arcalli, Franco Ferrini, Sergio Leone, Stuart Kaminsky, Ernesto Gastaldi. Com Robert De Niro, James Woods, Elizabeth McGovern, Joe Pesci, Burt Young, Tuesday Weld, Treat Williams, Danny Aiello, Richard Bright. IMDB.