Era Uma Vez no Oeste

Era Uma Vez no Oeste parece ser a tentativa de Sergio Leone de fazer o “Grande Cinema”, tornando todas as cenas costumeiras de seu faroeste mais solenes, lentas e cerimoniosas. Isso explica a trilha-comentário do músico Ennio Morricone, que oscila elegantemente entre toda essa solenidade e o pitoresco, com direito a pausa em uma música que lembra o cavalgar e que serve de tom cômico.

Essa ambição de Leone talvez fosse apenas um ledo engano, pois precisou filmar este épico para chegar em sua continuação temática em Era Uma Vez na América, que poderia muito bem ser exibido em uma sessão dupla.

Com exceção do cenário deslumbrante, as melhores partes do filme lembram muito as técnicas de enquadramento da trilogia dos dólares, em especial o último, Três Homens em Conflito. A montagem ritmada, que cria transições tão eloquentes quanto um tiro e um trem a vapor, exagera ainda mais o tom cartunesco já visto nos outros filmes. E pensar que tudo é feito sem efeitos de divisão de tela (como em Hulk) ou a fotografia alterada (como em Sin City). Não, aqui as pinturas que se criam com o aspecto panorâmico conseguem tanto evocar a beleza do quadro quanto seu tom exagerado.

Mas sou obrigado a voltar para a música. Morricone aqui cria um eco surreal vindo de uma gaita de boca tocada por ninguém nada menos que Charles Bronson, que faz o papel de homem misterioso junto com outros dois que logo se revelam: Jason Robards e Henry Fonda, este que depois de uma carreira como mocinho clássico faz aqui o seu primeiro papel de vilão, sendo por isso devidamente apresentado em uma cena particularmente cruel. Tanto essa mudança de expectativa com Fonda quanto o uso da harmônica com Bronson criam um clima estranho, quase onírico. E note como o som da gaita mescla com a música e tema e todos os outros sons do ambiente.

Aliás o uso do som “natural” no filme é digno de um maestro, pois este colabora com a tensão de uma maneira harmoniosa e ritmada, como pode-se ouvir logo na primeira cena, que utiliza o som de um velho moinho, o bater de gotas em um chapéu e uma mosca teimosa.

No entanto o mestre Leone quer deixar sua marca, e para isso tenta transformar seu bangue-bangue em uma alegoria do progresso - representado pelo trem. No fundo, a visão de Leone é um tanto ácida e talvez pessimista, pois em ambos “Era uma Vez…” os heróis e heroínas nunca representam a visão idealizada do bem, possuem falhas de caráter e conseguimos enxergar bondade em seus atos meramente pela situação onde se encontram.

Se bem que, de certa forma, a trilogia dos dólares dança no mesmo ritmo: fico feliz pelo músico ser o mestre Morricone.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-10-31 imdb