Ernest and Célestine

Jun 4, 2015

Imagens

É um desenho de 2012, indicado ao Oscar de 2014, que estreou na Netflix esse mês (2015). Falado em francês e dirigido por três pessoas, o filme parece possuir um maior poder de marketing do que de contar uma história diferente do que o velho clichê “eles vivem em mundos diferentes”. Contudo, é bem desenhado, mantendo suas virtudes em seu toque artístico.

A rata, Celestine, por algum motivo imagina um urso seu amigo e o desenha. Ela gosta de desenhar, apesar de ser criada na sociedade de ratos onde vive para coletar dentes de pequenos ursos. Os dentes viram os dois dentes da frente dos ratos, sem os quais eles falam estranho e nem os próprios ratos entendem (apesar de sempre haver algum chato no grupo que afirma estar entendendo). Isso é engraçadinho.

O urso, Ernest, acorda da hibernação morrendo de fome, mas não tem dinheiro para comprar comida. Ele é músico, mas ninguém lhe dá valor. Perseguido pela polícia por vagabundear, acaba conhecendo sem querer Celestine e ambos viram amigos inseparáveis. Isso é sentimental.

O casal de ursos, donos de uma doçaria e uma “loja de dentes”, realizam um mercado perfeito: de um lado os jovens ursos compram e comem doces ao final da aula (a escola fica do lado da doçaria), e assim perdem os dentes mais rapidamente, e por isso precisam ir à loja de dentes conseguir mais. Como eles conseguem tantos dentes não é muito bem explicado, mas dá a entender que os mesmos dentes que os ursinhos perdem são usados para os ursos adultos. Isso é de uma lógica infantil, mas estamos falando mesmo de um desenho infantil, em todos os seus detalhes, e por mais que ele tente permear o campo das ideias, no máximo vira uma apologia às ideias francesas sobre economia, não muito raro resumidas, incompletas e tendenciosas.

Como um desenho para crianças, o traço do filme segue a mesma lógica dos desenhos de Celestine, que vai melhorando com o tempo e que “surge” primeiro de um esboço em um papel branco. Contendo em sua lógica visual os traços de personalidade tanto da ratinha – agitada – quanto do urso – lento e desengonçado –, o momento mais inspirado do longa é a perseguição da massa de policiais de ambos os mundos. Eu poderia dizer que a lógica do julgamento duplo também é interessante, mas não é. Maniqueísta ao máximo, resolve uma situação da forma mais preguiçosa possível, típico das animações em série da TV.

Com uma didática e moral “certinhas”, permeada de politicamente correto e traços curiosos o suficiente para expressarmos um “aha”, Ernest and Celestine é a típica aventura de Sessão da Tarde, em que não há nada para fazer e nada a esperar. Aproveite e faça umas pipocas ou, se estiver frio e/ou chovendo, bolinhos de chuva. Só não coloque muito açúcar.

Wanderley Caloni, 2015-06-04. Ernest and Célestine. Ernest et Célestine (France, 2012). Dirigido por Stéphane Aubier, Vincent Patar, Benjamin Renner. Escrito por Gabrielle Vincent, Daniel Pennac. Com Forest Whitaker, Lambert Wilson, Pauline Brunner, Mackenzie Foy, Lauren Bacall, Anne-Marie Loop, Paul Giamatti, Patrice Melennec, William H. Macy. IMDB.