Escrevendo Curtas, de L.G. Bayão

Jul 16, 2018

Este é um livro curto, e sou fã de livros curtos. Porém, para um livro ser bom não basta ser curto. No seu pequeno conteúdo ele tem que ter algo a dizer. E o livro de L.G. Bayão tem, sim. Ele é um guia rápido e conciso que explica como não apenas curtas-metragens funcionam, mas como a indústria e linguagem cinematográficas funcionam na vida real, e de onde o curta é talvez o elemento mais basal e essencial para o começo (ou o final) de toda criação na sétima arte.

Claro, com pouco mais de 80 páginas, e apenas 50% dessas páginas possuindo detalhes técnicos, o trabalho de Bayão é superficial no máximo, mas como guia iniciante quebra um galho. Ele começa categorizando os tipos de curta, depois dá um exemplo do formato usado em voga, e relata o básico que todo escritor deve saber sobre estrutura para contar histórias. O valor do livro não está nas regras que já conhecemos sobre literatura, mas sobre como isso se encaixa na hora de escrever para um curta-metragem.

Por exemplo, ele detalha a diferença entre texto e subtexto, e se a maioria dos roteiristas soubesse essa diferença não teríamos tantos trabalhos medíocres por aí. Olhe seu ótimo exemplo:

Texto: um taxista trabalha no turno da noite e exposto aos perigos da profissão vai aos poucos perdendo sua sanidade mental até tornar-se uma pessoa totalmente agressiva e vingativa. Qual seria um possível subtexto para esta história? Solidão.

Outro detalhe primordial do trabalho de um roteirista é ter em mãos seu storyline e seu argumento, e Bayão mais uma vez ressalta as diferença envolvidas:

Geralmente perguntam ao roteirista qual a história do seu roteiro. Eles querem ouvir o storyline, a isca. Um storyline bem construído é um convite à leitura de um roteiro, enquanto que em um storyline pouco atraente leva um roteiro para a gaveta.

Já o argumento tem uma função diferente. O texto corrido dá uma sensação ao leitor de estar lendo um pequeno romance, o que facilita muito para quem é pouco familiarizado com o formato do roteiro cinematográfico. Ele também é muito útil na pré-produção, pois já que é mais detalhado que o storyline, oferece mais dados aos profissionais das outras áreas, como por exemplo, os cenógrafos, figurinistas… A partir do argumento também é possível calcular aproximadamente os custos da produção.

Além disso, gosto de livros que conseguem extrair da experiência do autor elixires de simplicidade: os axiomas. O processo para se chegar até ele é doloroso, mas o resultado é útil para o leitor, e simples de capturar a sua importância, mesmo que nenhum de nós consiga chegar no mesmo resultado. Você precisa sentir ao longo dos anos para chegar a esta conclusão:

O roteirista que cultiva o hábito de escrever roteiros assim deve constantemente se lembrar que o seu roteiro vai ser visto e não lido.

Citando um trabalho recortado em frases curtas:

Um objetivo importante a ser atingido por um roteirista é o de conseguir prender a atenção do leitor. Descrições onde o texto é seqüencial e contínuo convida à leitura, enquanto que um texto com freqüentes interrupções (simulando uma série de enquadramentos) dispersa o leitor.

Em seguida, dando um bom exemplo de alternativa de descrição de cena:

As palavras fluem naturalmente e levam o leitor a ver a cena como se ele estivesse assistindo-a na tela do cinema.

Ele também não pega leve com roteiros preguiçosos, e se você for cinéfilo o suficiente vai entender com todas as letras quando ele diz:

Se vai abrir a boca, que diga algo inesperado, se vai ficar calado, que faça algo revelador. O importante é que o seu personagem seja único.

E voltando para o lado pragmático, ele ressalta várias vezes que a função do roteirista não é a de dirigir o filme, atuar no elenco, vestir as roupas ou escolher as músicas que farão parte do trabalho cinematográfico. Este é um trabalho coletivo, e muito não está sob o nosso controle. Portanto:

Responda: quando num filme câmeras de cinema estão espalhadas pela história? Quase nunca, certo? Então nada de câmeras no roteiro. O roteirista deve escrever apenas o que vai estar na tela da forma mais visual possível.

Por fim, ele convida o leitor a acordar para a vida. Se tem algo que ele e outros escritores sabem, é que não é de uma salinha enfumaçada que saem as brilhantes ideias que populam as mentes dos cineastas:

Por isso é preciso sensibilidade para observar o mundo ao redor. Transforme seus olhos em pequenas câmeras e comece, a partir de agora, a registrar tudo que puder. E guarde estas imagens com você, pois estas são as verdadeiras ferramentas de um roteirista, que querendo ou não escreve sobre o mundo que conhece, vê, sente e sonha.

“Um bom roteiro pode se tornar um filme ruim, mas um roteiro ruim nunca poderá ser um bom filme.” – ditado antigo no cinema.

Bônus Points: referências que ele sugere para quem quer aprender sobre curtas e roteiros em geral

Talvez essa seja a parte mais valiosa deste livrinho. Com livros e links para o leitor dar continuidade, segue a listagem das mais interessantes (omiti os órgãos governamentais porque who cares e uns links quebrados ou de conteúdo duvidoso):

Livros:

  • FIELD, Syd. Manual do roteiro. 1.ed. Trad. De Álvaro Ramos. Rio de Janeiro. Objetiva, 1996.

  • McKEE, Robert. Story: substance, structure, style and the principles of screenwriting. New York. Regan books, 1997.

  • WALTER, Richard. Screenwriting. New York. Plume, 1988.

Links:

  • IMSDB http://www.imsdb.com/ Banco de roteiros com lançamentos recentes do cinema americano. Em inglês.

  • ROTEIRO DE CINEMA http://www.roteirodecinema.com.br/ Um dos mais completos websites para roteiristas do Brasil. Recheado de notícias, dicas, links e roteiros para cinema e TV.

  • CURTAGORA http://www.curtagora.com/ Uma iniciativa cultural da Interrogação Filmes em parceria com a Mnemocine tem o objetivo de levantar dados sobre a produção audiovisual nacional nos formatos de curta e média metragem durante os últimos 20 anos. Uma ferramenta e tanto para quem quer colocar seu trabalho no mapa. Dê uma conferida.

  • SCRIPTS-O-RAMA http://www.script-o-rama.com Os melhores roteiros vindos da terra do tio Sam, incluindo clássicos de Hitchcock e Kubrick.

  • CRIAÇÃO DE ROTEIROS http://www.roteirista.com/ Aqui você chega até o roteirista Hugo Moss e seus grupos de criação, seu conceituado curso online e o concurso que promove trimestralmente com o objetivo de estimular roteiristas de todas as idades.

  • ASSOCIAÇÃO CULTURAL KINOFORUM http://www.kinoforum.org/ Investe na difusão da produção audiovisual e do cinema independente na América Latina e é responsável pelo Festival Internacional de Curtas-Metragens. Destaca também um guia de festivais muito completo.

  • CURTA O CURTA http://www.curtaocurta.com.br/ Buscando sanar a falta de espaço para o curta-metragem nos cinemas e na televisão, surge o site Curta o Curta, onde o usuário pode assistir aos mais interessantes curtas, discutir sobre o cinema nacional, participar de promoções e até incluir seu próprio filme, fazendo da Internet um canal direto com o espectador.

Wanderley Caloni, 2018-07-16. Escrevendo Curtas: Uma introdução à linguagem cinematográfica do curta-metragem, de L.G. Bayão