Esquadrão Suicida

2016/08/12

As músicas deste filme faz com que o que ouvimos se torne infinitamente melhor do que o que vemos (e por “ver” eu quero dizer não só visualmente, mas as situações e os diálogos). Como prêmio de compensação, torna o pacote completo um pouquinho melhor.

Mas estou sendo um pouco injusto sobre o “ver”. Afinal de contas, ver os personagens de Will Smith e Margot Robbie acaba sendo, em vários momentos, um deleite. No caso da última, física e espiritualmente. Robbie está incompreensivelmente centrada em um filme que não dá a mínima para seus personagens (embora se esforce em mostrar um punhado deles).

Tanto não dá a mínima que ele se concentra o tempo todo em explicar uma trama sem sentido desde o começo, justificando o que não tem explicação. Por outro lado, ele utiliza as explicações para reinserir personagens vistos no ultimo filme do universo DC, como Batman e Flash, de uma maneira desleixada, como se estivesse pagando uma dívida eterna para os fãs (ou plantando verde para colher maduro nas próximas produções).

Mas, afinal de contas, um filme desmiolado com anti-heróis idem deveria ser pelo menos divertido. Robbie concorda comigo, mas aparentemente é a única. O resto segue um roteiro turístico sem sequer apreciar a paisagem (que no caso é uma Nova Iorque mais uma vez aos pedaços). Robbie e Smith ao menos olham para a janelinha do ônibus, e mesmo que Smith viva mais uma vez o pai amargurado, pelo menos convence.

Já os outros personagens, que diferem em praticamente nada (talvez o Crocodilo… mas só um pouco), estão tão dispersos e tão anestesiados que parecem não estar enxergando de fato a história, mas inúmeros fundos verdes com quem precisam interagir para ganhar seu cachê. Há muitas explicações de por que essas pessoas são a elite do mal, mas muitos poucos motivos no filme para realmente acreditar nisso.

Existe um outro potencial personagem para se juntar ao grupo dos “descolados”: o Coringa. No entanto, Jared Leto parece não conseguir relaxar em momento algum, criando um contraponto negativo com o Coringa anterior, esse “maluco beleza”, pois sacrifica a única coisa que o tornava mais interessante que seu amigo morcego: a cuca fresca. E, convenhamos, rir freneticamente de tudo o que faz, sorrir ou colocar sua mão na frente da boca (com um sorriso desenhado) não é o que podemos chamar exatamente de “construção de personagem”.

E por falar na dupla de amantes, Arlequina poderia se virar muito bem sem uma explicação de sua origem (assim como o Coringa anterior, que se beneficiava ainda de suas múltiplas histórias). Aliás, a Warner acaba de queimar um excelente cartucho para um filme solo (a menina merece!), já que a transformação entre uma jovem psicóloga para essa mente perturbada e esse corpo lascivo que não parece se encontrar exceto quando está com seu grande amor.

Esquadrão Suicida, por outro lado, esbanja efeitos visuais – que são quase invisíveis para quem assistiu à versão 3D, graças à ideia estúpida de filmar com o mesmo nível de claridade na versão em 2D, ignorando que os óculos permitem apenas a passagem de metade da luz para cada olho. Há algo de tenebroso e erótico na vilã, a Bruxa, que não me fará esquecê-la por um tempo. Não tanto pela personagem, cuja dupla personalidade (ou espírito) é bobinho. Não entendo como um espírito milenar aguentou usar o corpo de uma arqueóloga jovem e totalmente desinteressante.

Por fim, a bagunça dirigida e escrita por David Ayer (do ótimo Corações de Ferro) não convence em praticamente nada. É um faz-de-conta que não consegue sustentar nenhuma de suas premissas. Entendemos que é um mundo fantasioso, mas até a fantasia tem suas regras. A regra de Suicide Squad é nunca revelar quais são as regras. E nem isso ele convence, já que ele decide usar algumas regras na hora de resolver conflitos (todos convenientemente nos seus lugares). Sabe como é: há uma franquia que deve ser cuidada.

Se cuida, Marvel. Há outra produtora de capas e máscaras tão medíocre quanto você.

★★☆☆☆ Suicide Squad. USA, 2016. Direction: David Ayer. Script: David Ayer. John Ostrander. Cast: Will Smith. Jaime FitzSimons. Ike Barinholtz. Margot Robbie. Christopher Dyson. Bambadjan Bamba. Viola Davis. Ted Whittall. David Harbour. Edition: John Gilroy. Cinematography: Roman Vasyanov. Soundtrack: Steven Price. Runtime: 123. Ratio: 2.35 : 1. Gender: Action. Category: movies Tags: cinema 3d oscar dceu

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