Estados Unidos Pelo Amor
Wanderley Caloni, 2016-12-09

Estados Unidos Pelo Amor é um filme depressivo e intenso, que tenta unir a baixa moral do povo polonês, rendido ao regime comunista, com a carência desesperadora das mulheres de um vilarejo tão isolado que o azul celeste toca cada parede de suas casas, e o branco da neve cria barreiras intransponíveis na comunicação humana.

O filme é abordado em quatro história que se cruzam, tanto por serem de personagens que vivem no mesmo local e até trabalham juntas, quanto porque este é um filme com símbolos, e as quatro mulheres se parecem, apesar da diferenças nas idades. Todas buscam o reconhecimento, a afeição, o… nas palavras do próprio filme: amor.

Mas o amor, se tenta ser desvendado por diálogos repetitivos no decorrer da história, logo se revela a ingenuidade dessa busca incessante, de uma maneira divertida e ainda assim trágica: durante uma leitura de uma poesia por um professor, ele começa a conjecturar sobre o amor, quando um aluno intervém, perguntando se o professor já havia feito sexo.

A teoria e a prática se contradizem neste filme. Uma mulher dona de casa se apaixona pelo padre do vilarejo, e tenta usar o sexo com o marido para extravasar seus desejos mais espúrios. A incomunicabilidade com seu marido parece ser fruto do desejo pelo padre.

Já a luxúria dá lugar ao luto e faz com que uma amante se desespere até o nível mais baixo do ser humano. Justo ela, que está em uma das posições mais altas daquela sociedade – movida não pela excelência, mas por contatos e um status quo estático.

E o que dizer da professora recém-aposentada que nutria uma paixão avassaladora por uma de suas colegas mais jovens? Todo o declínio moral desta é visto sem lentes, assim como de todas as protagonistas dessa história.

A câmera do diretor e roteirista Tomasz Wasilewski é praticamente estática, salvo nos momentos mais felizes do longa (que são raros como uma valsa em Danúbio Azul). Ele está obsessivo atrás do que essas mulheres fazem debaixo dos panos, seus pensamentos, suas ações e reações. O objetivo é descobrir o que é esse tal de amor, que mais se assemelha a uma doença que mata aos poucos.

Há um certo charme na direção e no roteiro de Wasilewski, que não se preocupa em florear a história, mas em extrair dela a falta de significado no ato sexual e na própria nudez quando não existe o amor. E, aparentemente, o filme concorda que, sem dinheiro (leia: riqueza) o amor também fica congelado debaixo do rio no inverno.

Aliás, é uma questão bem interessante essa do título. O filme está ou não propondo uma crítica política usando dramas pessoais? Fica a dúvida, enterrada nos meandros dessa história intensa e depressiva demais para ser recomendada para qualquer um. Esteja avisado.

★★★★☆ Zjednoczone stany milosci. Poland. 2016. Direção: Tomasz Wasilewski. Roteiro: Tomasz Wasilewski. Elenco: Julia Kijowska (Agata), Magdalena Cielecka (Iza), Dorota Kolak (Renata), Marta Nieradkiewicz (Marzena), Tomasz Tyndyk (Adam), Andrzej Chyra (Karol), Lukasz Simlat (Jacek), Marcin Czarnik (Robert), Jedrzej Wielecki (Piotrek). Edição: Beata Walentowska. Fotografia: Oleg Mutu. Duração: 106. Aspecto: 2.35 : 1. Drama. #cabine