Eterno Amor

Um misto de remorso pelas agruras da guerra com a energia de uma investigação guiada unicamente pela fé (ou pelo amor). A beleza da fotografia fria e triste do front se contrapõe aos horizontes oníricos do presente nostálgico, que clama pela elucidação completa de um passado nebuloso que separou um casal apaixonado prestes a se casar. Eterno Amor é pura poesia na forma de criatividade narrativa. Um Pierre Jeunet que retrabalha sua Amélie Poulain em traços mais cruéis e menos esperançosos, e que tenta soar como um romance épico em torno de personagens com pouca alma e muita persistência.

Utilizando novamente Audrey Tautou, a namoradinha da França, o diretor Jean-Pierre Jeunet mais uma vez aplica a belíssima fotografia de seu colaborador Bruno Delbonnel (Harry Potter e o Enigma do Príncipe, Inside Llewyn Davis: Balada de um Homem Comum, Amélie Poulain) e a dinâmica e inventiva montagem de seu editor Hervé Schneid (Micmacs - Um Plano Complicado) para contar uma história cheia de poder criativo, mas que encontra em seu núcleo um drama intransponível para o estilo do diretor.

Sua busca incessante, no entanto, em tentar juntar todas as pistas que a bela mas manca Mathilde (Tatou) vai acumulando, testemunho após testemunho, em busca da verdade definitiva a respeito do paradeiro de seu amor, Manech (Gaspard Ulliel), é tão contagiante que o mundo que se cria em torno acaba compensando a total falta de realismo nesse conto quase-surrealista.

Com aspectos técnicos impressionantes a cada cena – exceto talvez pela música de Angelo Badalamenti, repetitiva e monótona, mas ainda assim condizente com a proposta do filme – e com um ritmo que vai se formando pela repetição (a insistência do carteiro em espalhar o cascalho da entrada da casa de Mathilde, só pelo bem da “entrada triunfal”), o roteiro da dupla Guillaume Laurant e do próprio Pierre Jeunet, baseados no romance de Sébastien Japrisot, não consegue se desvencilhar da sua complexidade em utilizar diferentes personagens que se parecem em situações que se embaralham, o que se por um lado acaba contribuindo para a atmosfera de desorientação de Mathilde, vai aos poucos se tornando uma distração incômoda para o espectador, que já não espera encontrar qualquer conexão memorável entre as pistas.

Até mesmo a dualidade de cores frias da guerra com as cores sempre aquecidas do presente da protagonista, fascinante no começo, também vai se esvaecendo com a cada vez mais distante capacidade de atribuir significado naquele emaranhado de símbolos. Jeunet se deixa sabotar pela sua própria obsessão de detalhes, e assim como seu mais recente trabalho, Uma Viagem Extraordinária, se esquece das emoções primárias de seus personagens para focar unicamente nas idiossincrasias de sua complexa história.

O que acaba por fim em tornar tudo aquilo uma imensa espiral de eventos que revela uma estrutura tal qual as escadas do farol onde o casal se encontrava: aparentemente infinita, mas se encarada com dedicação e empenho, alcançável até por uma manca que deseja enxergar além de suas limitações físicas. É o metafísico celebrado em vida. A mágica de usar o cinema como cornucópia de simbolismos visuais.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-01-06. Eterno Amor. Un long dimanche de fiançailles (France, 2004). Dirigido por Jean-Pierre Jeunet. Escrito por Sébastien Japrisot, Jean-Pierre Jeunet, Guillaume Laurant, Guillaume Laurant. Com Audrey Tautou, Gaspard Ulliel, Dominique Pinon, Chantal Neuwirth, André Dussollier, Ticky Holgado, Marion Cotillard, Dominique Bettenfeld, Jodie Foster. imdb