Eu, Daniel Blake

2016/12/20

O bom das crises financeiras é que aos poucos o mundo percebe como o sistema estatal, baseado no uso da força, é um sistema falido por definição. Ele não precisa de mais dinheiro, ele não precisa de mais controle. Ele precisa acabar. É através de trabalhos como esse em que é possível constatar que, mesmo que morrer de fome seja algo extremamente raro nos dias de hoje (pelo menos no mundo civilizado), ter sua dignidade esmagada é o preço que se paga por esse mundo. Valeu a pena?

Daniel Blake é interpretado pelo comediante Dave Johns como alguém que aos poucos perde a esperança de ter sua dignidade de volta. Tendo sofrido um ataque cardíaco no trabalho, é aconselhado pelos médicos a deixar de trabalhar por enquanto. Porém, isso não é o suficiente para o sistema trabalhista inglês, cujo perito decidiu que ele pode trabalhar normalmente. Claro que para fazer isso ele deverá sofrer as consequências naturais. Como morrer. Porém, esse efeito colateral não está nos protocolos do governo, que pede apenas que você atinja a pontuação necessária ou vá procurar um emprego.

Dave Johns usa o humor da maneira mais sutil possível aqui, extraindo de cada cena o seu absurdo. Não é seu personagem que está sucumbindo, mas aparentemente todo o sistema. Ele econtra no caminho uma mãe despejada por reclamar do local que alugava para viver com seus dois filhos pequenos. Eles a mandam para fora de Londres, onde arrumar emprego é ainda mais difícil. Encontra a ajuda apenas de quem realmente pode ajudar seres humanos: outros seres humanos. Nesse sistema perfeito que salva pessoas de morrer de fome, não há dignidade, e não há, portanto, nada pelo qual podemos identificar que um número de seguridade social significa que há um ser humano atrás da tela do monitor ou do outro lado do telefone.

A direção de Ken Loach é crua, estruturada em pequenos fades que deixa o espectador pensar por si só a cada novo baque sofrido por seus personagens. A trilha sonora é sutil e usada apenas quando necessário, para pontuar a passagem do tempo. O roteiro de Paul Laverty é naturalista, embora escolha dramatizar onde a vida real encontra a ficção, como uma mãe que prefere passar fome até desmaiar a ver seus filhos na mesma situação.

O filme tenta ligeiramente flertar com a possibilidade de atacar o capitalismo, esse bicho incompreendido. Logo no começo ele cita que os serviços de avaliação são de empresas americanas contratadas pelo governo, além de sugerir que contrabandear coisas da China pode causar, ainda que muito indiretamente, a falta de recursos do governo para expandir seus programas de bem-estar social. Felizmente, o filme é bom demais para cair nessas armadilhas nefastas, já que é só observar como as pessoas que atendem Blake e Katie (a mãe que citei) estão paralisadas por um sistema de regras que tenta proteger o governo das pessoas, e não o contrário.

“Eu, Daniel Blake” é um filme quase que documental. Ele não se baseia em nenhuma história em específico, é apenas o resultado de uma ótima pesquisa feita pelo seu roteirista, Paul Laverty. Mas poderia ter acontecido com qualquer um. Tanto que o caso da mãe desesperada no banco de comida é real (Laverty conheceu-a enquanto fazia a pesquisa). É difícil ligar a morte de aposentados ou pessoas com a saúde debilitada ao ineficiente serviço estatal. É difícil entender que existir um governo central é garantir que pessoas serão assassinadas por falta de recursos que estariam disponíveis se não fosse pelos impostos. É difícil, mas não impossível. Este filme é uma franca tentativa de fazer as pessoas entenderem, mesmo sabendo que elas nunca entendem. Ou entendem da forma errada.

★★★★☆ Título original: I, Daniel Blake. País de origem: UK. Ano 2016. Direção: Ken Loach. Roteiro: Paul Laverty. Elenco: Dave Johns (Daniel). Hayley Squires (Katie). Sharon Percy (Sheila). Briana Shann (Daisy). Dylan McKiernan (Dylan). Natalie Ann Jamieson (Employment Support Allowance Assessor). Jane Birch (Librarian). Mark Burns (Job seeker). Stephen Clegg (Job Centre Floor Manager). Edição: Jonathan Morris. Fotografia: Robbie Ryan. Trilha Sonora: George Fenton. Duração: 100. Razão de aspecto: 1.85 : 1. Gênero: Drama. Tags: cabine

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