Eu Fico Loko
Wanderley Caloni, 2016-12-13

Os “vloggers” começam a sair do armário. Quer dizer, isso eles já fizeram no YouTube. Agora estão entrando na porta da frente: o Cinema. Depois do clássico moderno “É Fada!” (brincadeira, nem vi), agora é hora de explorarmos a história da vida de um vlogger de sucesso. Sua idade? 22 anos. E você pensou que apenas o Justin Bieber teria seu livro biográfico parecendo um panfleto.

Mas a boa notícia é que o filme é bom e interessante, apesar dos clichês trazidos da equipe acostumada a “globochanchadas” (um dos roteiristas, além de assinar “É Fada!”, também assina o terrível longa-comercial S.O.S. Mulheres ao Mar). Muito provavelmente isso deve ter acontecido por causa do próprio Christian Figueiredo e suas pseudo-histórias reais, contadas no YouTube e que agora se transformaram em um roteiro de gelo. Sua avó é divertida e é divertidamente interpretada por Suely Franco. Alessandra Negrini faz a mãe de luxo do garoto, e acredita em energias e “acredite em si mesmo” (essa é a educação que Christian recebeu quando foi zombado pelos coleguinhas na natação).

O papel de Christian é dividido pelo próprio Figueiredo nos tempos atuais e por Filipe Bragança, que faz um bom trabalho de caracterização do que seria o Christian de sete anos atrás. Um dos motivos do filme ser interessante é que ele mistura dois Christians divididos por apenas sete anos no tempo, tornando óbvio que são duas pessoas diferentes. Essa dinâmica da vida real não é muito bem explorada pelo filme, mas está nele, e pode ser um estopim para futuros trabalhos de um sub-gênero que está nascendo: o de “história de sub-celebridades da internet que deve ser contada muito rápido antes que eles desapareçam”. Mais curioso ainda é saber que existem três Christians (!) na história, já que o começo de tudo ele ainda é mais criança.

No entanto, apesar da atuação eficiente de Bragança como o jovem desajustado e dos micos vividos pelo protagonista no passado serem divertidos, o ator dificilmente consegue realizar qualquer coisa que lembre um arco, no sentido de entendermos como o garoto tímido e impopular virou um combustível incrível de criatividade e identificação com milhares de fãs na internet. Dessa forma, acompanhamos a história de Christian da mesma forma com que o acompanharíamos no YouTube. Não há nada, exceto a longa duração, que diferencie o filme de cinema dos curtas caseiros, exceto uma edição vídeo-clipe e uma estrutura enlatada para fazer caber as experiências do garoto em um formato estilo novela.

Ainda assim, as sacadas da comédia e a construção dos eventos independentes que vão ocorrendo em sua vida são o suficiente para manter a história no ar por todo o tempo, o que não é pouca coisa, já que boa parte dos causos realmente aconteceu com ele e é narrado em seus vídeos (alguns você poderá conferir nos créditos finais). De certa forma, voltamos para a fórmula das comédias adolescentes norte-americanas, onde ficar com a menina especial, ou o primeiro beijo, são criadores de tensão automático.

A única coisa que difere um roteiro American Pie de “Eu Fico Loko” é que Christian realmente existe. E é famoso por existir e compartilhar suas experiências não com seus amigos, mas com milhões de pessoas na internet. A maior prova de que isso é significativo como análise da sociedade em que vivemos é que a cabine para este filme estava lotada, pois depois haveria uma entrevista com o elenco. Isso quer dizer primariamente que a presença de um jovem de 22 anos que faz vídeos no YouTube era cobiçada, pois ele gera conteúdo. E conteúdo por conteúdo, seu filme foi feito. Isso deveria dizer pelo menos um pouco em como TV e Cinema começam a se separar para dar lugar a mais um tipo de mídia. Tempos ainda mais interessantes parecem estar a caminho.

★★★☆☆ Eu Fico Loko. Brazil. 2017. Direção: Bruno Garotti. Roteiro: Christian Figueiredo, Bruno Garotti, Sylvio Gonçalves. Elenco: Christian Figueiredo (Christian), Alessandra Negrini (Lilian Figueiredo), Filipe Bragança (Christian), Suely Franco (Tatiana Figueiredo), Marcello Airoldi (Wanderley de Caldas), José Victor Pires (Yan), Thomaz Costa (Rodrigo), Isabella Moreira (Alice), Giovanna Grigio (Gabriela Coelho). Edição: Diana Vasconcellos. Fotografia: Dante Belluti. Trilha Sonora: Alok. Biography. #cabine