Eu Fico Loko

Os “vloggers” começam a sair do armário. Quer dizer, isso eles já fizeram no YouTube. Agora estão entrando na porta da frente: o Cinema. Depois do clássico moderno “É Fada!” (brincadeira, nem vi), agora é hora de explorarmos a história da vida de um vlogger de sucesso. Sua idade? 22 anos. E você pensou que apenas o Justin Bieber teria seu livro biográfico parecendo um panfleto.

Mas a boa notícia é que o filme é bom e interessante, apesar dos clichês trazidos da equipe acostumada a “globochanchadas” (um dos roteiristas, além de assinar “É Fada!”, também assina o terrível longa-comercial S.O.S. Mulheres ao Mar). Muito provavelmente isso deve ter acontecido por causa do próprio Christian Figueiredo e suas pseudo-histórias reais, contadas no YouTube e que agora se transformaram em um roteiro de gelo. Sua avó é divertida e é divertidamente interpretada por Suely Franco. Alessandra Negrini faz a mãe de luxo do garoto, e acredita em energias e “acredite em si mesmo” (essa é a educação que Christian recebeu quando foi zombado pelos coleguinhas na natação).

O papel de Christian é dividido pelo próprio Figueiredo nos tempos atuais e por Filipe Bragança, que faz um bom trabalho de caracterização do que seria o Christian de sete anos atrás. Um dos motivos do filme ser interessante é que ele mistura dois Christians divididos por apenas sete anos no tempo, tornando óbvio que são duas pessoas diferentes. Essa dinâmica da vida real não é muito bem explorada pelo filme, mas está nele, e pode ser um estopim para futuros trabalhos de um sub-gênero que está nascendo: o de “história de sub-celebridades da internet que deve ser contada muito rápido antes que eles desapareçam”. Mais curioso ainda é saber que existem três Christians (!) na história, já que o começo de tudo ele ainda é mais criança.

No entanto, apesar da atuação eficiente de Bragança como o jovem desajustado e dos micos vividos pelo protagonista no passado serem divertidos, o ator dificilmente consegue realizar qualquer coisa que lembre um arco, no sentido de entendermos como o garoto tímido e impopular virou um combustível incrível de criatividade e identificação com milhares de fãs na internet. Dessa forma, acompanhamos a história de Christian da mesma forma com que o acompanharíamos no YouTube. Não há nada, exceto a longa duração, que diferencie o filme de cinema dos curtas caseiros, exceto uma edição vídeo-clipe e uma estrutura enlatada para fazer caber as experiências do garoto em um formato estilo novela.

Ainda assim, as sacadas da comédia e a construção dos eventos independentes que vão ocorrendo em sua vida são o suficiente para manter a história no ar por todo o tempo, o que não é pouca coisa, já que boa parte dos causos realmente aconteceu com ele e é narrado em seus vídeos (alguns você poderá conferir nos créditos finais). De certa forma, voltamos para a fórmula das comédias adolescentes norte-americanas, onde ficar com a menina especial, ou o primeiro beijo, são criadores de tensão automático.

A única coisa que difere um roteiro American Pie de “Eu Fico Loko” é que Christian realmente existe. E é famoso por existir e compartilhar suas experiências não com seus amigos, mas com milhões de pessoas na internet. A maior prova de que isso é significativo como análise da sociedade em que vivemos é que a cabine para este filme estava lotada, pois depois haveria uma entrevista com o elenco. Isso quer dizer primariamente que a presença de um jovem de 22 anos que faz vídeos no YouTube era cobiçada, pois ele gera conteúdo. E conteúdo por conteúdo, seu filme foi feito. Isso deveria dizer pelo menos um pouco em como TV e Cinema começam a se separar para dar lugar a mais um tipo de mídia. Tempos ainda mais interessantes parecem estar a caminho.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-12-13 imdb