Eu Matei Minha Mãe

Oct 16, 2015

Imagens

Xavier Dolan é um menino prodígio que, desde os cinco anos atua e desde os vinte se envolve com direção e roteiro de seus filmes de temática adolescente com uma abordagem intensamente poética. Este seu primeiro filme, Eu Matei Minha Mãe, foi escrito por ele aos dezesseis anos e é parcialmente auto-bibliográfico.

A história conta a relação conturbada entre o jovem Hubert Minel (Dolan) e sua mãe, Chantale Lemming (Anne Dorval). Não compartilham o sobrenome por ela ser divorciada, mas cuida do seu filho sozinha. Suas constantes caronas de e para o colégio incitam as maiores brigas, mas as melhores reparações se encontram sob o teto de sua casa, brega e antiquada como sua mãe. Através de recortes de vídeos do próprio Hubert se filmando no banheiro, além de pequenos trechos de poesias e textos escritos por ele, Eu Matei Minha Mãe segue o princípio de ser um pseudo-documentário encenado pelo próprio protagonista.

Ao comparar de maneira gritante os universos do jovem e sua mãe, além de suas conversas sempre deixarem claro que suas prioridades são completamente diferentes – ele quer um lugar ao sol e sentir que é amado e respeitado, ela quer educar o filho para a realidade da vida, e está sempre preocupada a seu respeito, ainda que não demonstre para ele – o filme estabelece uma chave universal para entender a relação entre mães e filhos: conectados diretamente desde a criação (ou adoção), são dois seres de gerações e pensamentos distintos tentando manter viva uma relação fadada ao fracasso. Quantos amigos você tem com diferenças de idade tão gritantes quanto as de uma mãe e seu rebento? Pois é, agora imagine tentar ser amigo de uma pessoa mais velha (ou mais nova) que você, viver na mesma casa, compartilhar a mesma rotina. Isso todos nós nos acostumamos, mas é na adolescência onde o maior número de feridas são abertas (e cicatrizadas mais tarde).

Dolan como criador concretiza em filme um texto difícil, cheio de sutilezas, partindo para cenas em câmera lenta com música pop, momentos em que a câmera se distancia dos personagens, colagens com imagens surreais simbolizando um momento de sanidade – como a imagem de uma santa – ou de loucura – a amizade entre duas amigas mais velhas. É um filme que encanta pela sua universalidade, mas encanta também pelas atuações cheias de personalidade. O próprio Dolan consegue destrinchar Hubert como um garoto inseguro, bipolar, gay e aficionado pela arte da escrita. Já Anne Dorval parece ter encarnado com perfeição todos os toques, diálogos, expressões e reações de uma típica mãe que se preocupa com o filho adolescente e que tenta inutilmente tocar sua própria vida, minúscula perto das demandas de um ser com hormônios à flor da pele.

Mesmo que você não goste de filmes intimistas ou até mesmo independentes, Eu Matei Minha Mãe consegue manter um alto nível de produção e não soar bizarro para o senso comum. Pelo contrário. Ao imputar universalidade nessa relação eterna, alcança o lugar-comum sem soar banal.

Wanderley Caloni, 2015-10-16. Eu Matei Minha Mãe. J'ai tué ma mère (Canada, 2009). Dirigido por Xavier Dolan. Escrito por Xavier Dolan, Xavier Dolan. Com Anne Dorval, Xavier Dolan, François Arnaud, Suzanne Clément, Patricia Tulasne, Niels Schneider, Monique Spaziani, Pierre Chagnon, Justin Caron. IMDB.