Ex Machina

Um exercício filosófico em forma de filme que entrega um thriller que prende a atenção do começo ao fim, mas que por evitar usar palavras “complicadas”, ou melhor dizendo, empregar relações mais complexas entre seus personagens, constrói uma experiência “sanitizada”. Todo o ambiente reflete isso: as paredes acinzentadas, as portas idênticas, os padrões geométricos repetidos. Porém, ao usar vidros por todos os lados e diálogos reveladores, há pelo menos uma coisa que somos obrigados a encarar de frente: a nossa humanidade sendo roubada por nossa própria criação.

Porém, a humanidade retratada aqui é tão estéril que não sentimos muita compaixão pela raça humana, uma decisão bem inteligente. Caleb (Domhnall Gleeson) é um programador talentoso, mas solitário, que trabalha na empresa de outro programador, Nathan (Oscar Isaac), mais talentoso e mais solitário. Criador do Gooogle, ops, de um motor de busca de sucesso, Nathan se isola em uma casa que mais lembra um centro de pesquisa localizado no fim do mundo, mas que ao eu redor exibe a natureza da forma mais linda: cheia de cores, formas, e, principalmente, intocada pelas mãos humanas. De maneira quase que metafórica, sua morada fica no subsolo, abaixo de toda essa beleza, e quando a vemos, está isolada por vidros.

Caleb é sorteado para passar uma semana na fortaleza da solidão de Nathan, e com isso tem acesso – após assinar um termo em que se compromete a guardar o que vir para si mesmo – ao fruto da última pesquisa de Nathan: uma Inteligência Artificial em forma de moça: Ava (Alicia Vikander, cujo o nome de sua personagem é um paralelo óbvio demais com a Bíblia). Sua fisiologia parece idêntica a um ser humano, até no seu modo de andar. As duas únicas exceções parecem residir nos materiais usados e ainda na idade prematura de sua mente, algo que parece ser corrigido rapidamente a cada novo dia de sua existência.

Fechando a lista dos únicos personagens relevante, Kyoko é a única funcionária a serviço de Nathan. Calada, não conhece a língua que falam, um artifício usado por Nathan para proteger a informação que é trocada nas conversas casuais durante o almoço. Isso é, seriam conversas casuais se Caleb e Nathan não se comportassem como robôs, principalmente o primeiro. Nathan também, mas de outra forma. Sua humanidade parece que foi sugada pela sua própria invenção. Suas duas únicas preocupações parecem se resumir em sempre ficar completamente bêbado e proteger o acesso aos dados de sua pesquisa. É tão irônico quanto compreensível que o criador de uma das ferramentas que mais invade a privacidade das pessoas tome tantas precauções para evitar a sua própria.

Contando a trama através de um dia-a-dia rotineiro, em que Caleb tem por função realizar perguntas para Ava de forma a julgá-la através do famoso Teste de Turing – que permite reconhecer que um computador passou a ter uma consciência que o torna indistinguível de um ser humano –, parece que esses dias são curtos demais, e as perguntas sem nenhuma imaginação. Pior: é difícil acreditar que Caleb e Nathan realmente passam uma semana tão estéril quanto a sexualidade do rapaz, não havendo quase nenhuma pergunta que desperte nosso interesse.

Ainda assim, a história é conduzida justamente pela lenta evolução dessas mesmas perguntas e a respeito da natureza mais obscura de Nathan. Sutilmente a história toma contornos de um movimento feminista, mas muito bem estruturado, em uma relação dono/coisa que parece se encaixar perfeitamente em qualquer momento na História em que um grupo de humanos subjugou outro. O detalhe mais genial é que os opressores dificilmente enxergavam nos oprimidos figuras dignas de pena, compaixão, ou mesmo empatia. Aqui, apesar de vermos claramente que Ava possui algo mais do que um roteiro pré-programado por um gênio dos computadores, isso é opaco para as duas figuras masculinas do filme, que insistem em tratá-la como uma coisa a ser analisada.

Deixando para o final seus momentos mais eletrizantes, é onde todas as pontas soltas são fechadas sem ofender o espectador. Na verdade, a maioria dos detalhes discutidos durante o filme são discretamente mencionados sem pausa para pensar, o que faz todo o sentido se imaginarmos que quando uma inteligência superior ao homem passa a existir, a relação de subordinação precisa ser revista. Com uma visão pessimista sobre o homem e seu futuro, resta lembrarmos quando Nathan diz a Caleb que IA não é algo que pode-se escolher criar. Trata-se apenas de uma questão de tempo.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-05-19 imdb