Expresso do Amanhã

2016/01/13

O quão bom é a mensagem de um filme à medida que ela vai se tornando óbvia demais? Em Expresso do Amanhã, um filme violentamente gráfico e com desvios de caráter para o bem de seu argumento, talvez esse limite seja quando um personagem declara que “o trem é o mundo, nós somos a humanidade”, em um momento tão avançado na história que até para aquele espectador que dormiu metade do filme a mensagem já é pura e cristalina como água derretida das calotas polares.

E água pura é o que não falta nesse futuro pós-apocalíptico. Baseado na Graphic Novel coreana Snowpiercer, também o nome do filme – elegantemente traduzido no Brasil para Expresso do Amanhã – uma nova Era do Gelo se instaura no planeta e os únicos sobreviventes estão em um trem construído por um empresário megalomaníaco que cruza todo o hemisfério norte eternamente já há 18 anos. Para manter todo esse sistema fechado funcionando, todos os detalhes são planejados e executados na ponta de uma régua. A régua, como não poderia deixar de ser, pertence aos vagões mais à frente. A execução, se você ainda não adivinhou, ocorre nos vagões mais ao fundo.

Mas isso tende a mudar a partir do momento que um dos passageiros da última classe, Curtis (Chris Evans), decide junto com seus companheiros – o jovem Edgar (Jamie Bell) e o experiente Gilliam (John Hurt) – iniciar uma nova revolta – sim, houve anteriores. À medida que os vagões são dominados, vamos conhecendo mais sobre os mecanismos que permitem que o trem – e seus passageiros – subsistam por tanto tempo. Não há detalhes o suficiente para entender como, por exemplo, a energia é transformada, mas há passagens inspiradas no filme que conseguem transitar elegantemente – embora sem sutileza nenhuma – por essa alegoria da teoria de classes e domínio elitista, seja do corpo – com o uso das poucas armas disponíveis a bordo – ou da mente – através da educação doutrinária desde criança.

Além de que, como citei, é um filme de violência gráfica extrema, e verbal também. O momento mais tenso do filme talvez seja justamente o que não vemos: a descrição de Curtis de sua adolescência e como eram as condições dos passageiros da última classe antes que a ração de proteína fosse desenvolvida para alimentá-los.

Apresentando um Chris Evans completamente possuído no papel de Curtis, os personagens secundários vão aos poucos pintando essa realidade através do seu figurino, talvez até mais do que os diálogos ou ações. As exceções ficam por conta da professora a bordo (Alison Pill) e da irreconhecível Tilda Swinton como Mason, uma megera manipuladora visivelmente descontrolada em seu posto, gritando por ordem e discursando – e vestindo – um traje muito mais 1984 do que toda a tripulação junta.

Porém, a grande dobradinha do filme está nas mãos dos conterrâneos do diretor. Ah-sung Ko (O Hospedeiro) é uma jovem que nasceu no trem, viciada na droga à bordo – convenientemente um refugo industrial – e cujas visões se tornam parte importante da história no momento final. Seu pai, Kang-ho Song (Lady Vingança, Mr. Vingança) é um especialista em segurança que desenhou os portões que separam os vagões; se mantendo drogado constantemente, seu passado é nebuloso, mas não é difícil entender suas motivações através do seu passado; difícil é conhecer as motivações acerca do futuro.

Além disso, encabeçando o elenco de veteranos, Ed Harris é Wilford, o maluco por trás dessa invenção que transforma não só as engrenagens metálicas, mas toda a humanidade como parte de um sistema complexo que atribui funções bem-definidas a cada compartimento. Harris confia na própria premissa para explicá-la, e é desnecessário criar fantasia em um cenário que já é absurdo demais. Do outro lado – literalmente – John Hurt é Gilliam, o ancião dos passageiros do fundo, cujo olhar parece conter muitas histórias que ele parece querer esquecer, embora não consiga. Coincidência ou não, ele é o protagonista de 1984, o romance de George Orwell transformado em filme que mostra um futuro igualmente distópico e autoritário.

Como deve ser fácil imaginar, uma produção coreana cara dessas e com atores de uma conhecida trilogia não poderiam vir de outro lugar. Produzido por Chan-wook Park (Old Boy), o filme é um marco na ficção científica recente desse país, cuja filmografia – de todos os gêneros – sempre assombra pela crueldade e pela maneira cínica e pessimista de observar os seres humanos.

O diretor coreano Joon Ho Bong (Memórias de um Assassino) estiliza demais sua ação, e aborda a violência de uma maneira que pode assustar muitos espectadores. Porém, seu jogo de lentes para manter-nos sempre em um tom claustrofóbico, com paredes sempre circundando a realidade à volta, são eficientes do começo ao fim, mas principalmente no início. Quando vemos a primeira fresta de luz no filme, é como se ela fosse a escuridão, e a escuridão fosse a luz natural que a humanidade se acostumou a viver e a se esconder.

Com efeitos visuais que impressionam, mas estão contidos o suficiente para não atrapalhar o andamento da história, O Expresso do Amanhã é um filme que vai em um crescendo, e pode desanimar parte da plateia no começo. Se você ainda não o assistiu, não desanime. Há muitos mais vagões interessantes logo à frente. Se trata apenas de um mecanismo necessário para que a tensão suba até o limite do aceitável.

★★★★☆ Snowpiercer. South Korea, 2013. Direction: Joon Ho Bong. Script: Joon Ho Bong. Kelly Masterson. Joon Ho Bong. Jacques Lob. Benjamin Legrand. Jean-Marc Rochette. Cast: Chris Evans. Kang-ho Song. Ed Harris. John Hurt. Tilda Swinton. Jamie Bell. Octavia Spencer. Ewen Bremner. Ah-sung Ko. Edition: Steve M. Choe. Changju Kim. Cinematography: Kyung-pyo Hong. Soundtrack: Marco Beltrami. Runtime: 126. Ratio: 1.85 : 1. Gender: Action. Category: movies

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