Extraordinário

May 23, 2018

Imagens

São tão cansativos aqueles filmes que insistem em fazer o espectador chorar apenas “porque sim” que quando vem o primeiro choro de Extraordinário ele é tão natural, tão coisa simples, tão “uma criança diria isso”, que você chega a perdoar todas as vezes que o filme pretende levanta a bandeira da diversidade e de todos merecem uma medalha por existirem.

Isso não quer dizer que este é um filme que vai além do drama americano de superar adversidades quando as adversidades são apenas alguns arranhões na pele. Este é exatamente o tipo de filme americano que faz os americanos sentirem auto-piedade, por terem que sobreviver a “first world problems”, ou terem que sobreviver à dura tortura de criar filhos e desistir de sonho, etc. Sim, às vezes pode surgir a vontade de vomitar. Ele é um Lady Bird para a família (incluindo crianças), que discute com propriedade microagressões como se elas fossem reais. Este filme, assim como 13 Reasons Why, problematiza situações as forçando, mas diferente da série mimimi da Netflix, as crianças, os jovens e os adultos neste filme são adoráveis.

E por serem adoráveis, entendemos o problema de cadas um deles, e conseguimos nos conectar com talvez a maioria deles, e entender cada superação. O filme é dividido em capítulos com o nome de cada personagem que ele pretende analisar. Não é um filme que se concentra no drama de uma criança apenas que nasceu com uma doença genética que distorce seu rosto, mas sobre como isso afeta a vida de todos em volta, como a irmã mais velha, a mãe superprotetora, as crianças que tentam ser amigos e as que tentam ser inimigos. Todos possuem um motivo para fazer o que fazem. Menos o vilão-mirim, claro. Este é maldade pura e precisa servir de exemplo do que não ser na vida.

O arco que mais gosto, apesar de achar sua conclusão exagerada (como quase todos os arcos do filme) é a de Via. A irmã mais velha. Interpretada por Izabela Vidovic, ela parece ser a única que não precisa de ajuda na composição do seu personagem. As câmeras apenas focam em sua cara e na sua forma de relevar o fato de que não recebe atenção devida de seus pais desde que seu irmão e suas 40 cirurgias sugaram todas as atenções familiares. Ela finge ser filha única não pelo peso de ter um irmão deformado, mas de ter um irmão que se torna rapidamente alvo das atenções. A sua insistência em ser correta mesmo sendo deixada de lado e ajudar o irmão é a recompensa que todo pai e mãe deveriam aspirar ao criar seus filhos. Por outro lado, o arco de sua amiga, Miranda, é artificial e desnecessariamente condolente, problematizando a vida de uma adolescente com pais separados. Como se não houvesse problemas o suficiente no filme para problematizar. Isso lembra quando adaptações de romances podem inchar desnecessariamente.

Mas este é um filme leve que tem a missão de explorar o sutil tema de relacionamentos humanos, sob todos os prismas. Há momentos deliberadamente forçados que mantém a história nos trilhos, e usar seus personagens como títulos não foi a melhor escolha. Nem a medalha final. Isso soa tão Ron Howard que dá sono só de pensar. Porém, os diálogos são caprichados, muitos deles podem ser colocados na boca de crianças, e o elenco mirim está afiado, orquestrado e enquadrado pelo diretor Stephen Chbosky (As Vantagens de Ser Invisível) em um nível de perfeição que nos remete continuamente em como tudo aquilo é humano e familiar. Dá um quentinho no coração.

Olhe a grande curva do protagonista, Auggie, que na pele de Jacob Tremblay e da equipe de maquiagem rouba a atenção em pequenas cenas no ponto de querermos vermos mais. Embora o filme force a família a enxergar o valor da história que acabamos de assistir, Auggie não é estúpido como o filme pensa de seus espectadores, e ele brilha quando eles passam por apuros na floresta nas férias de verão e quando um menino que ele sabe não ser mandado pelo diretor reconhece sua amizade forjada por acontecimentos reais, e não uma mera formalidade nem a pressão de grupo. Esse é o momento mais valioso de todo o longa, quando Auggie se emociona e sabemos o porquê sem que nos digam.

Este é um filme em que ninguém se machuca e a vida segue seu rumo. A problematização dos relacionamentos humanos está no ar e todos merecem uma medalha. Se você conseguir sobreviver a isso, terá como recompensa um dos poucos filmes humanos do ano que fala de maneira honesta, sem rodeios, sobre a aventura da convivência, do amadurecimento, da tolerância e do desafio de todos nós de enxergar uma realidade em que todos possam se encaixar, independente dos problemas físicos ou emocionais. E isso… é extraordinário.

Wanderley Caloni, 2018-05-23. Wonder. EUA/Hong Kong, 2017. Escrito por Stephen Chbosky, Steve Conrad e Jack Thorne baseados no romance de R.J. Palacio. Com Jacob Tremblay, Owen Wilson, Izabela Vidovic, Julia Roberts e Mandy Patinkin. Dirigido por Chbosky. IMDB.