Faust

Novo filme de Aleksandr Sokurov, mestre em expor a alma humana de uma maneira não-convencional ? vide “Mat i Syn” ou “Moloch” ?, Fausto transforma a lenda do homem e do romance homônimos em um apanhado dramático que, coeso em sua história principal, nunca nos revela o suficiente para se tornar a velha história clichê do homem que venda a alma ao diabo para obter conhecimento. Pelo contrário: ousado em sua estrutura, subverte a lenda e consegue transplantar sua visão de maneira igualmente satisfatória.

Ao contar a história da controversa figura do cientista/místico misturando aspectos históricos, teatrais e literários, o roteiro de Sokurov e Marina Koreneva (Moloch) consegue atrelar diferentes dimensões ao seu drama, ao mesmo tempo que já o transforma em um ser multifacetado e desiludido de todos os lados. A fotografia fria, apesar de belíssima, evoca esse clima triste e depressivo, ao mesmo tempo que só é iluminado pela visão de sua amada Margarete (Isolda Dychauk, e que participa de uma sequência irretocável de troca de olhares).

Dá asas à imaginação da lenda original e discute de uma maneira particularmente folclórica a essência do dilema de Fausto e, por tabela, do próprio homem, criando inclusive distorções na imagem em vários momentos da história, Fausto revela muito mais em seus enquadramentos, muitas vezes díspars na mesma cena, mas que em conjunto exaltam o caráter eterno da função do demônio na Terra. Vemos pobreza e fome (guerra) em todo o lugar. Fazer-nos acreditar que viver é pior do que estar morto consegue justificar a atitude do protagonista.

Porém, toda a complexidade na figura de Fausto/homem não teria valor se não fosse a inspiradíssima participação de Anton Adasinsky como o agiota demoníaco, que engrandece toda cena em que está presente, com seus gestos, resmungos e diálogos inspiradores para quem, condenado eternamente à solidão, aguarda tão ansioso quanto os humanos pelo juízo final.

Ciente de que ações conseguem ser mais efusivos que os inspirados diálogos entre os dois, o ato de beijar na boca as figuras de pedra de Jesus e Maria, além de repugnante e hipnotizante, consegue revelar de uma maneira absurdamente econômica o papel do agiota na trama como um todo. São com esses detalhes tão pequenos (“ai, minhas asas!”) quanto grandiosos - como as sequências que poderiam ser emolduradas e postas na parede - que o filme recria um universo tão ou mais depressivo e bestial do que o romance máximo de Goethe poderia sugerir em suas páginas.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2012-07-27. Faust. Faust (Russia, 2011). Dirigido por Aleksandr Sokurov. Escrito por Yuriy Arabov, Aleksandr Sokurov, Marina Koreneva, Johann Wolfgang Goethe. Com Johannes Zeiler, Anton Adasinsky, Isolda Dychauk, Georg Friedrich, Hanna Schygulla, Antje Lewald, Florian Brückner, Sigurður Skúlason, Maxim Mehmet. imdb