Felicidade

Há uma introdução vigorosa e poderosa em Felicidade, novo trabalho da diretora Doris Dörrie (Hanami - Cerejeiras em Flor). Sem diálogos e um jogo de sons e imagens extremamente econômicos em sua mensagem, acompanhamos a vida perfeita e feliz de Irina (Alba Rohrwacher) em seu país de origem seguido da tragédia que vem com a guerra, representada por um grupo impiedoso de soldados. O choque de realidades é intenso, mas em poucos momentos aliviado com a visão de um cervo, que representa não apenas a última visão de Irina e sua terra natal, mas a capacidade do filme de amenizar passagens fortes de sua história, uma virtude e ao mesmo tempo a sua maior fraqueza.

Mesmo debilitada emocionalmente, ou talvez por causa disso, Irina começa uma outra vida na cidade grande. A capacidade que ela tem de se manter de pé e continuar a respirar suas emoções só consigo atribuir à sua vida passada, plena e cheia de felicidade. A felicidade aqui tem cheiro e cor, representada por elementos simples como o mel ou um pouco de imaginação. Irina diz se alimentar de mel por ser uma abelha. Lembramos do enxame de sua fazenda fugindo dos tiros de canhão. O texto visual do filme é sempre forte e sutil como esse exemplo.

Irina conhece Kalle (Vinzenz Kiefer) e enxerga nele a mesma leveza que possui. Juntos tentam buscar novamente a felicidade, e mesmo que seja difícil nunca sentimos ser mais difícil do que é para qualquer um de nós, que precisamos quase sempre matar um leão por dia. É nesse ponto que a leveza do filme impede que acontecimentos particularmente trágicos e tensos não possuem espaço para crescer. Ao amenizar as situações, perde-se o potencial dramático por uma tenebrosa comédia, e com ela vai-se o significado maior do filme: a felicidade a qualquer custo sacrifica o poder da tristeza.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2012-10-25 imdb