Festa da Salsicha

Jun 2, 2018

Imagens

Essa delícia de filme é aquele tipo de brincadeira que você vai aumentando com os amigos mais chegados e, quando vai ver, está produzindo um filme. Seth Rogen, Johah Hill, Evan Goldberg, Kristen Wiig e mais uma série de atores irreverentes auxiliam na escrita, produção (nenhum grande estúdio estaria por trás disso) e atuação (dublagem) desta animação que definitivamente não é para crianças, mas que poderia servir de lição para muitos adultos com algumas partes da mente ainda infantil. E ainda dar boas e pesadas risadas.

Greg Tiernan, um diretor mais marginal (Deu a Louca na Cinderela) dirige esta bagunça com a ajuda do diretor mais experiente Conrad Vernon (e especialista em animações, como Shrek 2, “Monstros vs. Alienígenas” e “Madagascar 3: Os Procurados”) e conseguem o pequeno milagre de tornar o resultado enxuto e na maior parte das vezes acompanhável como narrativa e ainda inserir as trocentas piadas que esta trupe de humoristas inseriu nesta gigantesca alegoria sobre o mundo dividido que temos (como a eterna briga entre judeus e palestinos) que se encaixa na intolerância e a miopia de religiões em geral (incluindo aqui também a agressividade dos neoateus) e sobre levar às últimas consequências o Dia da Independência americano, ao liberar das garras dos insaciáveis humanos os rotativos produtos de um supermercado onde a história se passa.

O protagonista, uma salsicha embalada para ser consumida dentro das “pãezinhas” que são vendidas na mesma proporção de pacotes pares (e cuja conotação sexual já começa nos seus lábios em formato de ambos os lábios de uma mulher), vive, assim como os outros, cantando no começo de cada dia naquele supermercado, aguardando por ser comprado pelos deuses (no caso, os humanos) e ser levado para “a luz” (através da porta de entrada), onde receberão a recompensa dos céus por serem obedientes e acreditarem e reverenciarem seus deuses. Eu não quero nem ressaltar a perfeição da analogia desta história com qualquer religião clássica Ocidental que você conheça; basta reler esta descrição ou observar cada detalhe sendo comentado no longa, incluindo aqui a sensacional sacada de um pãozinho árabe que espera por 72 garrafas de azeite extra-virgem como sua recompensa.

O conflito de interesses daqueles obedientes produtos ocorre quando um pote de mostarda e mel é devolvido, e ele relata o que os antigos nativos do local (os produtos não-perecíveis) já sabem, mas mantém em segredo para a estabilidade daquela sociedade: a dura e cruel realidade que os deuses na verdade consomem seus “fiéis”, das maneiras mais cruéis possíveis (isso se você imaginar aquela realidade do ponto de vista daquelas figuras com mãozinhas e perninhas). Não há o prazer infinito de uma salsicha enfiada confortavelmente em uma pãozinha se logo depois ambos são devorados. A partir daí ocorre uma cisão de opiniões entre a protagonista salsicha e sua pãozinha, em mais uma analogia sensacional envolvendo sexo antes do casamento.

Cada novo episódio neste filme expande as ideias do longa na mesma proporção que eu imagino que as piadas desses colegas de profissão foram expandindo conforme o roteiro coletivo foi tomando forma. Muitos momentos parecem ser criados apenas para inserir as piadas a respeito do conflito na Palestina ou referências aos desejos proibidos de “uma” taco lésbica, e se torna impossível imaginar um vilão mais sujo e perverso do que uma ducha vaginal que foi deixada de lado no último momento pela sua potencial compradora.

Aliás, eu falei sobre episódios porque de fato há uma estrutura um tanto episódica cujo objetivo se torna claramente ir desmembrando o repertório de piadas. Mas isso em (quase) nenhum momento significa que a história paralise para dar vazão a piadas fora de contexto. A direção dinâmica da dupla Tiernan/Vernon elabora uma construção de mise-en-scene que funciona em diferentes planos. Quandos os heróis sobem em uma prateleira para observar um plano geral do mercado e para onde devem ir enxergamos a real dimensão de um mundo para os moradores do local. Já quando a ação se passa entre corredores apertados onde se misturam diferentes tipos de salsas mexicanas (e outros produtos que já passaram do prazo de validade) o ambiente se beneficia do clima underground daqueles lugares nunca antes visitados pelas estrelas do supermercado em época de feriado americano para dar a sensação a nós, espectadores, de estar perdido em um supermercado (mas nesse caso como se fosse uma questão de vida ou morte).

O longa, a meu ver, vai longe demais quando ele faz uma piada envolvendo a persona de Stephen Hawking sendo uma goma de mascar ultra-passada que anda em uma cadeira da rodas elétrica, mas em um bom sentido. Nesse momento as piadas de cunho sexual se tornam ligeiramente menores frente a uma alegoria que vai até suas últimas consequências, e cuja sequência-chave envolve se drogar com sais de banho e um pedaço de pizza que perdeu as pernas. Isso, meus amigos, é imaginação sem controle e sem censura. O conjunto da obra se torna uma piada de uma hora e meia para ser vista e revista com os amigos em um encontro casual regado a álcool. Claro, se você não se sentir mal depois, dependendo da comida que forem ingerir, pois cenas fortes virão. Eu evitaria baby carrots.

Finalizando o longa com uma sequência orgástica que me fez pensar em quantos pais tiveram que conversar com seus filhos após levá-los inadvertidamente para assistir essa fofinha animação com salsichas e pães, Festa da Salsicha é uma experiência bem-sucedida como Cinema e humor adulto do começo ao fim, muito embora as piadas gratuitas o façam perder o ritmo aqui e ali. Mas com dublagens repletas de profissionais competentes e com uma direção firme que consegue manter as rédeas de uma história que faça o mínimo de sentido, eu diria que o excesso de piadas é o menor dos problemas. Talvez seja apenas uma das razões para ver o filme de novo. Dica: convide aquele seu amigo religioso para um debate saudável. Esse é o nível de confiança que tenho com o “politicamente incorreto sob controle” que o filme passa.

Wanderley Caloni, 2018-06-02. Sausage Party. EUA, 2016. Escrito por um batalhão do besteirol (incluindo Johah Hill e os também produtores Seth Rogen e Evan Goldberg). Dirigido por Greg Tiernan e Conrad Vernon. Dublagem por Seth Rogen, Kristen Wiig, Jonah Hill, Alistair Abell, Iris Apatow, Michael Cera, Sugar Lyn Beard, James Franco, Salma Hayek, Edward Norton, Paul Rudd... eu já falei Kristen Wiig? IMDB.