Florence - Quem é Essa Mulher?

Meryl Streep é tão boa que dá até raiva. Aqui ela faz uma socialite da década de 40 em Nova Iorque que não chega a ser um desastre como cantora de ópera, mas está claramente dando seus primeiros passos na música.

O problema é que ela já tem 76 anos.

A vida de Florence Foster Jenkins, uma figura real, não foi fácil. Contraindo sífilis aos 18 anos pelo seu primeiro marido, a pequena herança que seu pai a deixou foi suficiente para comprar o respeito de toda a comunidade musical idosa da cidade, além da integridade de seu marido, o semi-aristocrata britânico St Clair Bayfield (Hugh Grant). O respeito e afeição legítimos de St Clair com sua esposa é o pilar moral para que o filme não seja tratado como uma comédia de situação. É um drama, mas que usa sua fina e divertida comédia para fazer pensar.

E por falar em comédia, há também a participação surpreendente de um dos atores da série The Big Bang Theory, Simon Helberg, como o jovem e afeminado pianista Cosme McMoon. Com o risco de soar caricato ou pouco convincente, Helberg diverte e muito. Sua sequência inicial, em que sabemos que os dotes musicais da personagem de Streep não são, por assim dizer, dignos de um Carnegie Hall, é impagável do começo ao fim.

No entanto, nenhum desses personagens é realmente caricato, e nunca é tratado assim pelo roteiro de Nicholas Martin em sua estreia nos cinemas. E a mesma opinião é compartilhada pelo diretor Stephen Frears (A Rainha, Coisas Belas E Sujas), que humaniza aquelas pessoas como se realmente fizessem parte da paisagem daquela Nova Iorque pulsante. A direção de arte, fotografia, figurino e até a trila sonora nada sutil de Alexandre Desplat criam um universo aconchegante que não dá vontade de dizer adeus, nem em seus créditos finais. Se há um pecadilho, é a insistência de Frears em sempre mostrar Nova Iorque custe o que custar nas cenas externas, talvez fazendo valer o orçamento…

Por fim, o filme diverte e emociona, mas não é uma emoção simples. Há muitos pontos de vista em jogo, mas podemos resumir o tema do filme como uma ode à mediocridade, por mais que tente soar outra coisa (na verdade, não tenta). E é irônico como isso se encaixa tão bem com a insistência do grande público em “proibir” críticas aos seus filmes favoritos, geralmente superproduções onde não há nada de novo e de muito mau gosto. Bom, pelo menos em “Florence” há muito a ser discutido.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-06-10 imdb