Fôlego

Wanderley Caloni, December 20, 2010

Também sem usar muitos sons fora do universo do filme, o diretor se foca nas emoções dos personagens traduzidas por atitudes muitas vezes inusitadas, como guardar um fio de cabelo da mulher misteriosa que visita um homem que assassinou a família. Curioso que a própria mulher se vê na mesma condição dele, pois, condenado à execução, ele tenta se suicidar, fato que aparece nos noticiários e chama a atenção da mulher. E ela mesma, quando criança, “morreu” por 5 minutos prendendo a respiração debaixo da água. Por outro lado, a relação com um homem que matou sua esposa e duas filhas não deixa de ter mais significados, sabendo que ela própria também tem problemas de relacionamento com o marido e sua própria filha, da qual pega o pregador de cabelo, tentando voltar à infância e aquela sensação de estar morta.

Os simbolismos são mais fortes ainda se considerarmos outras partes da história, como o fato de nunca vermos o diretor da penitenciária, mas notarmos seus gestos pelo reflexo do monitor, da mesma forma com que acompanhamos a vida privada dessas pessoas, com a câmera por vezes atrás da cortina da casa dela, ou por trás das grades da cela dele. Um filme também de sutilezas, quando percebemos na primeira vez que seu marido atende o celular.

A mudança na expressão dela, que começa a esboçar um sorriso logo depois da primeira visita, é nítido. E são esses tipos de detalhes que marca o filme, como os enquadramentos super-econômicos, a exemplo da trilha sonora, como quando vemos a ação pelos buracos da cela, devidamente enquadrados pelo próprio buraco.

Ou até o gesto do diretor indo em direção ao botão de fim de visita, quando vemos que o casal vai se beijar pela primeira vez.

O crescente aumento nas tensões inerentes à própria história, assim como a tensão no romance proibido dos dois, é colocada num ritmo que é facilmente cativador do espectador, que se coloca no lugar do diretor da prisão e acompanha com os olhos bem atentos todos os movimentos dentro da casa, da prisão e entre os dois.

O fato de vermos os movimentos com as mãos dela na primeira canção (primavera) ser repetida pelo diretor da prisão pode ser uma dica que se trata de uma canção parte de infância ou cultura daquele povo, e portanto familiar a todos.

O som que ela escuta nos ouvidos pode também ser a tradução da pouca trilha que ouvimos fora desse universo.

A estilização das árvores do outono se unem de forma multidimensional quando a câmera caminha dele (encostado em um árvore no papel de parede) até ela, por um galho.

E o último enquadramento, em que a vemos de preto no ato fatídico, de preto, em formato de viúva-negra, prestes a liquidar seu parceiro sexual, me parece tão simbólico quanto todo o resto do filme. Tanto que após isso vamos para uma cena de neve, onde toda a pureza está representada nos tons brancos do carro, da neve e do próprio final.

Imagens e créditos no IMDB.
Fôlego ● Fôlego. Soom (South Korea, 2007). Dirigido por Ki-duk Kim. Escrito por Ki-duk Kim. Com Chen Chang, In-Hyeong Gang, Jung-woo Ha, Ki-duk Kim, Ji-a Park. ● Nota: 4/5. Categoria: movies. Publicado em 2010-12-20. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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