Fome

Jul 28, 2016

Imagens

Para quem quer um “filme de arte” que se arrasta e não sabe cortar, que mantém um ritmo irregular, que mistura realidade e ficção com pitadas de metalinguística em um contraste gritante e, por fim, que tenta usar sua ideologia de esquerda para concluir todos os pensamentos por trás de sua história, irá gostar bastante do novo trabalho do diretor Cristiano Burlan.

Burlan não usou roteiro, mas usou um sistema que se assemelha a story boards e um ator que é um pilar para a narrativa. Jean-Claude Bernardet, crítico e escritor sobre cinema brasileiro – além de acadêmico de longa data – faz um velhinho maltrapilho sem-teto arrastando um carrinho de compras estourado com todos seus pertences pelas ruas do centro de São Paulo. Ao ser entrevistado por uma estudante (de humanas, arrisco), ele ganha o nome de Malbrough, o general de uma canção folclórica francesa, a única que o maltrapilho se lembra. Talvez por pensar estar em uma guerra contra o status quo, ou vá-lá-saber.

O preto e branco do filme é rústico, mas dá o tom correto de poesia em cima de um realismo árido de uma São Paulo pintada não como uma terra de oportunidades, mas como um beco sem saída, um labirinto para os que desistiram de viver morrerem de fome, doenças e depressão.

Apesar de Burlan ser um diretor nitidamente vermelho, gosto de acreditar que nesse caso a beleza de sua obra está em dividir o filme em duas vertentes. A primeira, escondida nas cinzas escuras das sombras e das folhas que permeiam a cidade e seus parques, é onde se escondem os sem-tetos, invisíveis para a maioria da população, e quando visíveis, alvos da compaixão antiquíssima conhecida como culpa burguesa.

A segunda vertente, os personagens secundários, a ficção, é o que torna o filme inigualável em torno das metáforas que cria através da metalinguagem de um crítico de cinema brasileiro ser um sem teto gay e comunista. Os personagens que interagem com o velhinho, como o casal que tenta dar sobras de seu jantar para o velhinho, ou o ex-aluno que o tenta ajudar mas acaba criticando a postura intransigente de seu professor, ou até a estudante, que realiza uma auto-crítica sobre a crueldade com que explora a vida dessas pessoas para ganhar uma nota melhor na escola, são todos banhados por uma luz sobrenatural, que os torna seres iluminados caminhando em torno das trevas da miséria e do esquecimento.

Porém, apesar de banhados em luz, é deles a interpretação capenga, teatral, de uma realidade inexistente. É deles as frases mais clichês e sem efeitos (melhor não dizer nada, como Malbrough). É deles, também, na figura da estudante, o senso dessa culpa burguesa, resumido em um diálogo com seu professor, onde fala (inúmeras vezes) sobre a crueldade com que ela age, colocando no chinelo até o homem “feminazi” que mais pediu desculpas e mais levou chicotadas em sua vida.

O sistema é cruel, e até o mundo acadêmico está embrulhado para presente. A mensagem de “Fome” tenta ser feroz, mas contém uma ideologia pobre de lógica, se perde em conjecturas a respeito de tudo que vemos e acaba por esmagar a fina camada de realidade onde ali residia Malbrough, o general que combate a burguesia se negando a pertencer a esse sistema corrompido, moral e religioso. Vendo seus soldados morrendo de fome, doenças e – o mais comum – depressão, o nobre e culto general (por ter vindo da Europa) prefere viver uma vida digna: a vida dos pobres.

No final, apenas uma mensagem ecoa no corte ríspido (até que enfim um corte!) dos créditos finais: vá pra casa, Malbrough, você já bebeu demais…

Wanderley Caloni, 2016-07-28. Fome. Hunger (Brazil, 2015). Dirigido por Cristiano Burlan. Escrito por Jean-Claude Bernardet, Cristiano Burlan, Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni. Com Henrique Zanoni, Ana Carolina Marinho, Jean-Claude Bernardet. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui (Source).