Fragmentado

2017/04/18

Este é mais um suspense de M. Night Shyamalan baseado em “eventos reais” que flerta com as possibilidades sobrenaturais de suas premissas. Mas mais “sobrenatural”, contudo, é a forma simplista com que a história é contada, como se o diretor/roteirista não se importasse muito com a verossimilhança da história que quer contar, já que, marca registrada do diretor, obviamente tratará de um tema que brinca com coisas “Além da Imaginação”.

Considere, por exemplo, o rapto de três garotas. Se trata de um homem, não muito forte, que as mantém presas, mas não imobilizadas, em um quarto com uma porta de madeira. Um detalhe vital é que este homem parece se comportar de maneira diferente algumas vezes que ele interage com as moças, e isso imediatamente faz com que uma delas, a mais problemática, conclua que o rapaz tem diferentes personalidades, ou pessoas, dentro dele.

Mas isso em um mundo onde a ciência parece não aceitar a teoria das múltiplas personalidades. Ou pelo menos não da forma como a Dra. Fletcher a enxerga. Convencida que seus pacientes traumatizados são superiores aos seres humanos saudáveis, ela realiza sessões com Dennis frequentemente, e está não apenas interessada em seu caso, mas positivamente admirada.

Isso levanta uma questão importantíssima em toda a história: qual o nível de irresponsabilidade que um psiquiatra no mundo real precisa ter, mesmo que digamos que este enxerga os que os outros não viram, para influenciar e impactar de maneira tão contundente a vida e o destino de um paciente que obviamente parece precisar de mais cuidados que sessões de terapia?

Essa dualidade entre a psiquiatra que desenvolve através de anos de pesquisa uma teoria revolucionária sobre múltiplas pessoas (leia: personalidades) vivendo no mesmo corpo e a garota perturbada que de primeira conclui qual é a do sujeito maluco que se comporta como criança fragiliza a premissa, não nos permitindo deduzir qual o tom de credulidade deveríamos ter. Ao mesmo tempo, as tentativas de fuga das meninas parecem patéticas demais, principalmente se considerarmos tanto tempo disponível para elas arquitetarem um plano melhor do que sair correndo, já que desde o começo Dennis não parece oferecer um perigo tão imediato, talvez uma falha de atuação, roteiro ou mesmo direção do elenco. Eu chuto que o ritmo dos filmes de Hitchcock funcionam muito melhor para esse tipo de história. Shyamalan o emula com uma certa competência, mas de maneira apressada, relapsa, pedante e quase automática, sem pensar em seu conteúdo.

Por outro lado, o primor técnico com que o diretor conduz a história parece diminuir essas falhas, transformando um suspense banal em uma história fascinante que vai se desdobrando com o passar de um tempo que não precisa de contagem para se sentir. E a capacidade de Shyamalan em saber ligar um evento ao outro, como o tempo entre Cassie observar o perigo em sua volta e a tentativa de abrir a porta do carro, são os elementos que tornam um suspense médio em momentos de prender a respiração.

Da mesma forma, o uso exagerado de enquadramentos inquietantes, como o (teto transparente) da escadaria, ou o movimento já clichê de um corredor cheio de canos que parece não ter fim, assinam a obra do diretor, que não poderia ser mais ninguém, mas ao mesmo tempo afastam o espectador da história. A mesma coisa pode ser observada na trilha sonora, eficiente, mas que usada ao exagero flerta com o trash.

E trash é um traço que M. Night não conseguiu ficar longe tempo suficiente para um filme inteiro. Uma pena. No entanto, a chamada pós-créditos para um outro trabalho do diretor é capaz de dar arrepios aos fãs de seu trabalho. Pena que sua assinatura do começo ao fim parece diminuir a empolgação de vermos uma história verdadeiramente nova.

★★★☆☆ Título original: Split. País de origem: USA. Ano 2016. Direção: M. Night Shyamalan. Roteiro: M. Night Shyamalan. Elenco: James McAvoy (Dennis / Patricia / Hedwig / The Beast / Kevin Wendell Crumb / Barry / Orwell / Jade). Anya Taylor-Joy (Casey Cooke). Betty Buckley (Dr. Karen Fletcher). Haley Lu Richardson (Claire Benoit). Jessica Sula (Marcia). Izzie Coffey (Five-Year-Old Casey). Brad William Henke (Uncle John). Sebastian Arcelus (Casey's Father). Neal Huff (Mr. Benoit). Edição: Luke Franco Ciarrocchi. Fotografia: Mike Gioulakis. Trilha Sonora: West Dylan Thordson. Duração: 117. Razão de aspecto: 2.35 : 1. Gênero: Horror. Estreia no Brasil: 23 March 2017. Tags: cinema

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