Frankenweenie

Nov 16, 2012

Imagens

Desde o início há algo de mágico em Frankenweenie. Baseado em um curta dirigido pelo próprio Tim Burton e, quem diria, produzido pela Disney, o diretor e roteiro repetem os mesmos passos certeiros do trabalho original, conseguem desviar dos errados e acrescentam, além de uma divertidíssima homenagem ao Terror em seus momentos mais fortes, uma saudável discussão em torno de como as pessoas enxergam a ciência hoje em dia. Afinal de contas, o Frankestein de Mary Shelley nunca esteve tão presente nas discussões de botequim, misturado com superstições religiosas que continuam assombrando-nos até hoje.

A história reconta o clássico de terror sob o ponto de vista do garoto Victor Frankestein (Charlie Tahan) e o seu cachorro Sparky, que devido a um acidente fatal, acaba falecendo e deixando Victor desconsolado. Até que ele tem uma ideia inspirada nas explicações do seu estranho professor Sr. Rzykruski (Martin Landau), que tenta apresentar a ciência para as mentes jovens dos seus alunos como o potencial criador de perguntas e respostas que leva a humanidade a dar passos cada vez maiores. A ideia, como não poderia deixar de ser, dá certo, e Victor consegue trazer Sparky de volta do mundo dos mortos.

Ao apresentar seu cenário exageradamente peculiar dos subúrbios americanos já vistos no pequeno bairro de Edward Mãos de Tesoura, além dos seus habitantes mais peculiares ainda, fica logo claro que a decisão de manter o remake em preto e branco favorece a construção da tensão e do terror que, mesmo infantilizado, é construído de maneira estilizada através das caricaturas que são os seus personagens, como a garota esquisita de pupilas minúsculas que acredita em profecias proferidas pelo seu gato igualmente esquisito que faz cocô com a inicial do nome da próxima pessoa atingida por grandes acontecimentos. Dessa forma, temos sim um filme infantil em seu formato, mas igualmente aterrorizante como os “filmes para adultos”.

Confortável em retornar para fábulas “dark” como em A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack (como produtor), Tim Burton recria aqui inúmeras referências à histórias de terror, como Gremlins e Godzilla, e mesmo histórias já fabulosas e que remetem ao caráter lúdico do projeto, como Chapeuzinho Vermelho. No entanto, as referências mais divertidas ficam por conta mesmo da maneira de dirigir e usar ângulos exagerados para personagens já “naturalmente” afetados pela fabulosa equipe de direção de arte, que consegue evitar muito diálogo com um visual que já diz tudo. O uso da luz e sombra, tão importante em filmes do gênero, aqui possui o papel que merece. E note como o diretor evita o susto fácil, tão frequente em produções apelativas.

Contando ainda com uma conclusão inesperadamente emocionante, pelo menos para mim, que perdi minha cadela Pata em condições emocionalmente abaladoras, Frankenweenie faz eco com outra produção tão inversa quanto Marley e Eu, mas consegue extrair do seu universo a lição de moral que precisava para recolocar a questão da ciência nas mãos dos adultos. Afinal de contas, já é hora de esquecermo-nos dos inúmeros contos de fada em que acreditávamos e assumir que o conhecimento do mundo é uma dádiva que não podemos ignorar.

Wanderley Caloni, 2012-11-16. Frankenweenie. Frankenweenie (USA, 2012). Dirigido por Tim Burton. Escrito por Leonard Ripps, Tim Burton, John August. Com Catherine O'Hara, Martin Short, Martin Landau, Charlie Tahan, Atticus Shaffer, Winona Ryder, Robert Capron, James Hiroyuki Liao, Conchata Ferrell. IMDB.