Crítica: Comercial Friboi - A certeza do churrasco perfeito

Oct 16, 2016

Em tempos de regravações de westerns como Sete Homens e um Destino, a Friboi aposta no gênero e já parte em seu último comercial, “A certeza do churrasco perfeito”, inovando com o conceito já inovador há pelo menos uma década de “câmera lenta com partículas em suspensão” introduzido por Guy Ritchie (Sherlock Holmes, 2009). Aqui o churrasco é visto através daquela trilha sonora afiada, fogos gerados por computação e, claro, close na destreza e precisão do mestre churrasqueiro.

Note como essas partículas de sal são vistas não uma, nem duas, mas pelo menos três vezes em um comercial de 30 segundos. O sal, de acordo com o narrador com voz pseudo-sensual-pseudo-rouca, é muitas vezes vista pelo mestre churrasqueiro como o segredo do bom churrasco (o que explicaria as altas doses de dinheiro trocadas por sal-vesgo de cor diferente da chapada amazônica trazida pelos índios friboizés). Porém, isso ainda não é o que garante o sucesso dessa churrascada. Vemos, então, o mestre do churrasco preparando com toda a dedicação sua carne. Ou seja, tirando da sacolinha a vácuo da Friboi, jogando sal e metendo na brasa.

Note também que os velhos clichês da Friboi estragam um pouco o prazer da aventura. “Carne selecionada”? Só se for seleção de espécie. O apelo ao macio também soa vazio, embora o “mestre” churrasqueiro aparentemente tenha decidido jogar ela na pedra, sem mais nem menos, machucando um bom bife pelo preço de uma boa tomada em câmera lenta (e se isso é realmente uma carne selecionada, começo a sentir pena do boi que foi sacrificado para um comercial que joga carne boa em pedra ruim).

Porém, note, nesta mesma tomada, um garfo afeminado, jogado meio que casualmente, perfeitamente alinhado em cruz com a faca de bastão de madeira. Nesse momento vemos algo inovador: o mestre churrasqueiro começa a levantar a bandeira LGBT e exibir pequenos traços de feminilidade em torno de seu ritual maravilhoso da devoração de animais por outros animais.

E, se nos mantermos ainda mais um tempo nessa mesma tomada, notaremos também um pedaço de alecrim, também casualmente modelado para ficar à esquerda superior do quadro, sugerindo um suposto product placement disfarçado de mato, sugerindo na realidade uma propaganda velada do Master Chef, programa de televisão que preza pelo uso de temperos esotéricos que cobram mais para que a comida fique com menos sabor.

E por fim, nesta mesma tomada, caro leitor, note como o “mestre” (humpf) churrasqueiro deixa todo seu sal derramado por toda a mesa. Além de um desperdício uma desorganização digna de fazer Bassi se remoer do túmulo. Assim não é possível se emocionar com a trilha sonora tão “original” do velho oeste, quando o que temos no comando é um sujeito desleixado, que preza antes pelo estético, depois pela perfeição gastronômica.

Na tomada seguinte, mais uma rajada de sal é desperdiçada. Alguém não bate muito bem com a cabeça para salgar a carne lançando as pedras de sal como se estivesse em um cassino jogando dados. Me admira que o personagem desta pequena obra não tenha se queimado na grelha até aquele momento, tendo que ser substituído pelo churrasqueiro autorizado da Friboi (que é… adivinha? acertou! um churrasqueiro selecionado… e macio).

Até porque, como veremos na sequência seguinte, a churrasqueira está jorrando labaredas acima da grelha. Alguém chame um entendido do assunto, pois o rapaz vai é queimar toda a gordura antes mesmo da carne.

Por fim, a cara de satisfação misturada com embrulho no estômago da coadjuvante – como podemos ver quando ela aperta incidentalmente sua cintura para baixo – não foi a melhor forma da nossa personagem faminta/apressada/comilona (e ela não é gorda; mais um erro de casting) representar o prazer dado por uma carne queimada por labaderas e mal-salgada pelo ex-jogador de cassino agora-mestre churrasqueiro-protagonista. A não ser… a não ser… que de fato a carne esteja horrível, e isso seria um plot twist disfarçado em um comercial que pretende vender carne.

Se for, é um movimento genial do diretor/roteirista, só obliterado pela cara de satisfação quase mongol, quase cantador de pagode, do nosso corajoso amigo churrasqueiro, que mesmo depois de jogar sal como dados em um cassino e colocar carne “selecionada” para ser consumida por fortes labaderas em uma churrasqueira mal-administrada, continua firme, de avental, pretensamente admirando a paisagem abaixo do pescoço da coadjuvante (mas ela não estava de decote, e nem estava mais do seu lado… erro crasso).

Por fim, um resultado medíocre da Friboi em apresentar como não se deve fazer churrasco, aliado a um timing cômico desagradável da coadjuvante no momento final… medíocre, mas com partículas em suspensão (no caso, sal mal jogado). Por isso leva alguns pontos de crédito.

Wanderley Caloni, 2016-10-16. Crítica: Comercial Friboi - A certeza do churrasco perfeito.