Gênios do Crime

Aug 12, 2016

Imagens

Quando assistimos a um filme, seja drama ou comédia, é normal nos preocuparmos com os personagens, de uma forma positiva ou negativa. Isso é vital para o funcionamento da narrativa. Quando isso não acontece o resultado são os milhares de filmes os quais não damos a mínima para as pessoas que nele habitam. Não que elas não sejam divertidas ou interessantes. É que elas simplesmente não fazem qualquer diferença para a história que estamos vendo.

É mais ou menos dessa forma que se comporta Gênios do Crime, que insiste em jogar diferentes situações e diálogos aleatórios ditas por esse ou aquele personagem e que seriam engraçados por si só. O problema é que precisa-se de pessoas para dizer aquelas falas, viver aquelas situações. Dessa forma, contrata-se um grupo de atores divertidos para colocá-los nessa função. De quebra, utiliza um roteiro planejado em torno de eventos reais, fazendo questão de citar isso sem pudor ou medo nenhum que o espectador perceba que não faz sentido aquelas pessoas existirem na vida real.

O irônico é: talvez elas existam mesmo. Talvez quase tudo no filme tenha acontecido de verdade. A questão é que não importa. Os personagens já sabem disso, e estão sendo engraçadinhos porque… bom, é isso o que esse elenco faz de melhor, certo?

Mas ao usar o elenco errado construindo personagens absurdos, o filme queima a fita duplamente. Primeiro em desperdiçar ótimos atores em um filme que não compete a eles. Segundo em desperdiçar uma bela história a recheando de gracinhas gratuitas.

Não é assim que se constrói uma comédia, fazendo rir? Sem dúvida algumas pessoas poderão achar a história engraçada, irônica e talvez com um final poético. Porém, há uma forma muito mais eficaz de utilizar uma história absurda dessas que é muito simples: simplesmente a contando. Ela teria o mesmo efeito sem o gosto de sessão da tarde.

O que incomoda é que se trata de uma ótima trama. Contém reviravoltas eficazes e que faz pensar em uma coisa ou outra. O que incomoda é perder essa chance com piadas que incomodam. Não por serem racistas. Não por serem sexistas. Apenas por estarem sendo usadas para alavancar uma história já premiada.

Não precisamos de alguém que defeca na piscina ou atira na própria bunda. Não precisamos do falsete da sedução ridícula (embora Wiig esteja perfeita no papel). Não precisamos do assassino profissional que mata por prazer e faz comentários inoportunos. Não precisamos, enfim, de novos-ricos provando que o sonho americano pode ser conquistado por idiotas. Basta que “saiam por aí conseguindo seus 17 milhões”.

Só precisamos entender como alguém procurado pelo FBI consegue ser tão agradável e simpático. Isso por si só seria algo muito bem-vindo. Infelizmente nem isso o filme te trará, pois Galifianakis nem de perto é uma escolha que traga essa simpatia.

Isso remete ao grande problema do filme: empatia. Resolva isso e teríamos mais Golpista do Ano. Ou seja, um filme absurdo baseado em eventos reais e que ainda assim consegue abduzir um público torcendo por criminosos gays vivendo um grande romance dentro e fora da prisão. Que diria que isso pode funcionar?

Wanderley Caloni, 2016-08-12. Gênios do Crime. Masterminds (USA, 2016). Dirigido por Jared Hess. Escrito por Chris Bowman, Hubbel Palmer, Emily Spivey, Emily Spivey, Chris Bowman, Hubbel Palmer. Com Kate McKinnon, Kristen Wiig, Jason Sudeikis, Zach Galifianakis, Owen Wilson, Leslie Jones, Mary Elizabeth Ellis, Jon Daly, Ken Marino. IMDB. Texto completo próximo ou após a estreia no CinemAqui.