Girlboss - Primeira Temporada

2017/04/26

Girlboss é uma história sobre os desafios do empreendedorismo. A série pega muito leve nos obstáculos, porque isso é EUA, e isso é Califórnia (se fosse no Brasil não existiria história, provavelmente). Seu núcleo gira em torno de uma menininha que, assim como quase todos nós, ainda não achou seu lugar no mundo, mas parece finalmente ter entendido o sentido da vida: tornar as pessoas felizes. E ela faz isso do seu jeito, reconfigurando roupas usadas (consideradas “vintage”), e não chama o que ela faz de negócio, mas de outra coisa. Caia na real, menina: você é uma capitalista malvadona!

Sim, poucas pessoas hoje em dia conhecem o significado da palavra capitalismo, exceto o “capetalismo” pintado por ativistas políticos interessados no seu dinheiro (e seus milhões de seguidores acéfalos), mas ele se constitui pura e simplesmente por trocas voluntárias. Elas acontecem para que a situação de vida dos envolvidos na troca melhore. Se não melhorar para todos os envolvidos, a troca nunca aconteceria. Simples assim. E a empreendedora (real) Sophia Christina Amoruso, ao criar a marca “Nasty Gal Vintage”, realiza justamente isso: troca seus serviços de busca e entrega (aliada a um senso estético que agrada seus clientes e desagrada fervorosamente seus concorrentes, materializados por lojas que consideram a moda vintagem intocável, digna de ser guardada em uma caixa por séculos. Mas, convenhamos, a caricatura criada pela série para isso, a falastrona Gail (pela ótima Melanie Lynskey), nem o grupinho que com ela formam um fórum na internet (o episódio em que eles se reúnem é ao mesmo tempo hilário e bizarro), conseguem convencer como realista.

Aliás, quase nada na série é realista por completo. Essa é a romantização da vida de Sophia, inspirada em uma empresária do ramo de roupas pela internet, mas transformada em poesia através dos textos supostamente perspicazes de Kay Cannon (New Girl), que junto com um pequeno batalhão de roteiristas encontram um tom que diverte sem passar da linha brincalhona da série, mas que ao mesmo tempo consegue tocar em temas delicados (como traição) com um tom muito mais maduro que 90% de todas as comédias românticas que saíram no cinema nas últimas décadas.

A queridinha (Tomorrowland) constrói aqui exatamente o que os criadores de Girlboss precisam. Ela realmente acredita em si mesma quando fala suas bobagens, parece não estar muito conectada com a realidade, mas possui aquele tom sério que vai crescendo aos poucos. Suas dúvidas existenciais começam bobinhas, mas aos poucos ela parece ir se transformando em uma mulher de verdade enquanto mantém seu espírito jovem e livre. Seu par alívio cômico e melhor amiga Annie é interpretada por Ellie Reed com um desprendimento que cativa. Seu sorriso fácil combina com a protagonista, e ambas conseguem cativar sem qualquer diálogo inteligente no roteiro. Esta não é uma série de tiradas fantásticas, mas sobre o ciclo de vida de sua personagem. Note como ela se transforma lentamente em um mundo quase que estático, com pessoas ou despidas de talento ou medíocres por natureza. E um grande trunfo da série é concluir que está tudo bem com essas pessoas.

Com sua direção dividida entre cinco pessoas, fica difícil apontar as maiores virtudes, exceto um dinamismo quase que constante em contar uma história que se baseia muito mais no visual do que no que é falado, o que é ótimo para uma série mais que atual. Um aspecto positivo de vários episódios é conseguir unir na edição e montagem aspectos como mudança do tempo (várias Sophias andando pelo seu quarto), navegação na internet (enquanto ela pesquisa seu nome vemos pela janela do quarto as diferentes visões de suas ideias). Até o já batido uso das mensagens de texto ganha um upgrade aqui. Não vemos um quadro genérico, mas o reflexo do que Sophia realmente está vendo. E quando é a hora de ver a tela de um aplicativo real hospedando um site, ele é real, e os criadores decidem de maneira perspicaz mostrar essa realidade, mas traduzi-la nos diálogos. Um trabalho de sincronismo perfeito entre a visão leiga e técnica do negócio.

Aliado a isso, a forma com que a série utiliza cores, figurino e tudo que gira em torno disso (direção de arte) é econômico sem soar simplista. Quero dizer: olhe o galpão onde eles fundam a empresa. Você realmente consegue acreditar em uma empresa fundo de garagem sem ela ser necessariamente especial. É apenas um galpão, e depois de decorado, é apenas um galpão decorado. E a trilha sonora, além de beneficiada pelo namorado de Sophia ser agenciador de bandas, ganha também outra virtude na montagem audiovisual. Note como uma música de um momento traumático na vida de Sophia a persegue.

Enfim, Girlboss parece uma série de mulherzinha, o que é verdade, e isso, ao contrário do que pode sugerir o nome, é ótimo do começo ao fim. Tem seus enchimentos de linguiça como qualquer série, mas ver sua protagonista por mais tempo consegue ser mais positivo do que prejudicial à série. O que é uma virtude e tanto se você for pensar em como as pessoas em filmes e séries comerciais estão cada vez mais banais. Aqui, apesar de ser um empreendimento capitalista da Netflix, a arte se fez valer. Está vendo como é possível beneficar a todos com trocas voluntárias?

★★★★☆ Girlboss. USA, 2017. Direction: Christian Ditter. Jamie Babbit. Amanda Brotchie. Steven K. Tsuchida. Script: Jen Braeden. Kay Cannon. Karen Graci. Brian Shortall. Sophia Amoruso. Sonny Lee. Eben Russell. Caroline Williams. Cast: Britt Robertson (Sophia / ...). Ellie Reed (Annie). Johnny Simmons (Shane). Alphonso McAuley (Dax). RuPaul (Lionel). Edition: Stacey Schroeder. Annette Davey. Sandra Montiel. Cinematography: Christian Rein. Soundtrack: Jeff Cardoni. Runtime: 26. Gender: Comedy. Category: series Tags: netflix series

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