Godzilla

O filmes-desastre costumam colocar em seu “currículo” o envolvimento de seus personagens (para tornar pessoal), alguma perda familiar (para tornar doloroso) e um momento de honra (ou político) que unirá todos contra o “mal” que assola a humanidade. No mundo real, nenhum destes itens costuma ser muito frequente ou relevante porque ninguém — exceto religiosos — costuma personalizar os infortúnios de um terremoto, tsunami, epidemias ou até mesmo acidentes nucleares como um inimigo que deve ser combatido (ou como punição aos infiéis). Também sabermos que discursos otimistas fazem parte da rotina burocrática de chefes de estado e nunca atingem a população mais prejudicada. Dessa forma, qual o sentido do monstro nipo-clássico Godzilla ser encarado como um inimigo? Nenhum! E é exatamente isso que o segundo longa de Gareth Edwards evita fazer durante os 123 minutos dessa produção hollywoodiana que mantém suas origens e homenagens orientais bem localizadas.

Desde o começo ele encontra uma forma brilhante de focalizar nossa atenção ao drama humano que é este filme ao usar Bryan Cranston e Juliette Binoche como âncoras morais extremamente eficientes (por serem conhecidíssimos) ao mesmo tempo que ajusta nossos olhares em torno (mas não apenas) de seu filho Ford (Aaron Taylor-Johnson, de Kick-Ass) e, claro, sua família. Ou seja, sim, existe a família como um dos temas centrais. Porém, o objetivo de Edwards não é subverter todo o subgênero, mas usar os clichês a favor de contar uma história da melhor maneira, e não apenas como muletas padronizadas para “cumprir tabela” enquanto exibe efeitos devastadores.

E por falar em efeitos, os monstros são de uma bizarrice ótima — pois é profunda, ancestral e quase alienígena — ao mesmo tempo que refletem sua origem de quando atores vestiam fantasias risíveis e se mexiam atrás de prédios de maquete. Aliás, Andy Serkis — o Gollum da saga “Senhor dos Anéis” e o César de “Planeta dos Macados: a Origem” — mais uma vez demonstra seu talento físico encarnando através de motion-capture seu personagem de 20 andares com a propriedade e o respeito que essa figura quase-mitológica merece. A trilha musical é enérgica (Alexandre Desplat, A Árvore da Vida) e remete com habilidade ao terror monossilábico das produções originais, mas quem rouba a cena mesmo são os efeitos sonoros, que conseguem harmonizar com precisão todo o terror sentido pelas pessoas quando avistam no horizonte um ser gigantesco se movendo em direção a elas.

No entanto, a despeito de atuações e pirotecnia, a maior virtude de Godzilla reside mesmo nas decisões conjuntas de direção, edição (Bob Ducsay, de Looper) e roteiro (Max Borenstein e Dave Callaham), sem o qual o filme seria mais um blockbuster esquecível. Esse tripé artístico e sua equipe conseguem recontar essa história amplificando-a através de escolhas pontuais que fazem toda a diferença. Quando, por exemplo, vemos na floresta à noite um camaleão se movendo com todo o cuidado sobre seus membros e há uma transição de foco para um soldado, igualmente preocupado por onde anda, não é por acaso: o ser humano é mais um coadjuvante de passagem do que um protagonista cheio de poder.

Em determinado momento uma fala de Ken Watanabe resume Godzilla para os mais desavisados fãs-de-explosão: “a arrogância do homem está em acreditar que nós controlamos a natureza, e não o contrário”. Seu personagem é um cientista que passou 15 anos pesquisando e analisando um organismo que permanecia um mistério. Quando esse organismo gigantesco acordou não demorou cinco minutos para sair pelo mundo sem nem dizer a que veio. Tudo que o homem consegue entender à sua volta a partir daí parece uma fração de conhecimento. Somos ignorantes a respeito de diversas coisas, mas a natureza existe há bilhões de anos e continua nos surpreendendo. Godzilla, assim como os melhores filmes de zumbi, não é apenas sobre um monstro que derruba prédios. Talvez ele seja tão enigmático porque escancara justamente o monstro ignorante que existe dentro de cada um de nós.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-05-28 imdb