Gonzaga De Pai pra Filho

“Gonzaga: De Pai pra Filho”, do diretor Breno Silveira (2 Filhos de Francisco, O Homem do Ano), é daqueles filmes que emocionam natualmente, sem maquiagens e pelo simples poder do Cinema de transformar em imagem o que já foi imaginado, lido e pensado. Vemos em som e diversas cores o ícone do sanfoneiro Luis Gonzaga, que trouxe, como bem diz o roteiro de Patrícia Andrade, “o sertão esquecido para o resto do Brasil”. Há algo de mágico nos momentos que Breno Silveira escolhe compartilhar conosco; algo de solene, quase místico.

Escolhendo narrar a história em um tempo “presente” (1981) onde pai (Gonzaga) e filho (Gonzaguinha) se reencontram depois de muito tempo afastados, e criando através desse encontro os momentos onde Gonzaga escolher contar a sua história para seu próprio filho, o filme tem idas e vindas entre um passado distante e que vai se aproximando aos poucos da dupla de músicos. Preferindo obviamente centrar sua história na figura lendária de Gonzaga, o filho vai aparecendo aos poucos, timidamente, e nunca se torna o segundo protagonista de fato, fazendo mais o papel de narrador entrevistador.

O que nos traz o primeiro problema no filme: identificação com os personagens. Escolhendo trazer sempre à tona imagens de arquivo do verdadeiro Gonzaga sempre no momento em que o vemos realizando algo memorável, a narrativa se fragmenta em “atores” distintos interpretando Gonzaga em três momentos distintos: presente, passado e realidade histórica. Essa viagem toda em torno da história vai enfraquecendo aos poucos a nossa percepção de quem é, na verdade, o sertanejo-título. Não só pelos sucessivos cortes, mas por não existir uma diferença marcante entre as duas ou três versões apresentadas.

O que nos leve para o segundo problema do filme: roteiro. Se tratando obviamente de uma homenagem ao músico nordestino — chegando ao absurdo de colocar um letreiro nos créditos finais que diz isso — não existe na história algo que permaneça durante as mais de duas horas de projeção e que o público espera uma resolução. Não há conflito, há drama documental mostrado em episódios. O que não é ruim, necessariamente, mas que por contraste reafirmar o brilhantismo de 2 Filhos de Francisco, que aposta justamente nas amarras do seu roteiro para criar tensão a partir de eventos biográficos.

Porém, não me leve a mal: chorei compulsivamente durante muitos momentos da peregrinação do músico do sertão em direção ao “sul” (um Sul que ignorava completamente a existência de um outro Brasil, diga-se de passagem). Anotei mentalmente a criação de Asa Branca como umas das cenas mais marcantes do ano no Cinema. Contudo, um filme não é composto de apenas cenas marcantes. A narrativa é imperativa para que criemos algo marcante. Nesse sentido, Gonzaga é uma experiência emocionalmente catártica, cujo triste fim talvez seja venerar demais o seu personagem-título.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2012-12-02. Gonzaga De Pai pra Filho. Gonzaga: De Pai pra Filho (Brazil, 2012). Dirigido por Breno Silveira. Escrito por Maria Hernandez, Patrícia Andrade, George Moura, Adriana Falcão, Breno Silveira, Leonardo Gudel, Maria Hernandez, Regina Echeverria. Com Adélio Lima, Chambinho do Acordeon, Land Vieira, Júlio Andrade, Giancarlo Di Tommaso, Alison Santos, Nanda Costa, Magdale Alves, Roberta Gualda. imdb