Grande Coisa

Lembra aquelas comédias meio-thriller, meio-policial e meio-pastelão(?!?). Pois é, em “Grande Coisa”, isso foi pasteurizado, talvez “reimaginado”, e se tornou uma trama pseudo-complexa sobre uma série de acontecimentos inesperados recheados de mentiras deslavadas e reviravoltas impossíveis, a ponto de duvidarmos se tudo aquilo poderia fazer sentido em um filme menos… retardado.

A questão é que não há muito o que fazer para tornar este filme interessante, e talvez por isso mesmo o diretor/roteirista Jean-Baptiste Andrea tenha decidido extravasar todos os clichês de uma vez só. Por isso a história começa como um golpe que seria aplicado pelo escorregadio Gus (Simon Pegg), o mau-caráter bem-intencionado Charlie (David Schwimmer) e a intrometida Josie (Alice Eve) e se transforma em uma análise sobre como selecionar melhor seus parceiros no crime. Especialmente se você está entrando agora nessa área.

Fotografado como um pedaço de arte impecável, com direito a contra-luz no momento em que o trio decide jogar um automóvel desfiladeiro abaixo, não há muita discussão moral envolvida nessa história, já que tanto o trio principal quanto os coadjuvantes que aos poucos vão se tornando corpos parecem estar em um mundo de decisões fáceis (atiro ou não atiro? jogo o corpo aqui ou mais longe? minto dessa forma ou de outra?) mesmo que estejam aparecendo corpos e mais corpos em um pequeno esquema de chantagem. O brilhantismo da história aqui parece ser começar simples para fisgar o espectador Sessão da Tarde para depois ir entregando absurdos cada vez mais inconsequentes que irão prender a atenção de forma eficiente – com pequeníssimos deslizes no meio do caminho – mesmo que o conteúdo não seja lá essas coisas. A forma está tentando tomar conta deste filme.

E, de certa forma, consegue. Com um elenco no automático de comédia e uma série de edições rápidas – com direito não a uma, mas duas divisões de telas totalmente despropositais e que geram ainda mais confusão – “Grande Coisa” realmente consegue comprovar que é possível contar uma história sobre absolutamente nada povoando-a com elementos fantásticos em uma noite pós-chuva belamente estrelada com holofotes, pois é isso que as estrelas neste filme lembram. Um personagem em determinado momento exclama “parece que dá para tocar as estrelas” enquanto outro fala sobre o número de dias para alcançar uma delas na velocidade da luz. Depois dessa cena nossos sentidos se ajustam à mediocridade e o filme não parece ser tão ruim assim.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2016-09-08. Grande Coisa. Big Nothing (UK, 2006). Dirigido por Jean-Baptiste Andrea. Escrito por Jean-Baptiste Andrea, William Rosenfeld. Com David Schwimmer, Simon Pegg, Alice Eve, Natascha McElhone, Jon Polito, Mimi Rogers, William Rosenfeld, Julian Glover, Olivia Peterson. imdb