Gravidade

Alfonso Cuarón (Filhos da Esperança) mostra mais uma vez saber usar as longas sequência sem cortes como uma ferramenta narrativa em vez de um mero estilo exibicionista. Usando o movimento giratório da câmera para impor o ritmo e precisando de pouquíssimos cortes — e ainda assim extremamente orgânicos — somos levados a uma experiência angustiante em torno da órbita da Terra, o que me pegou despreparado e a ponto de vomitar, me segurando na cadeira da sala I-MAX como se pudesse sair flutuando de lá.

Não é exagero nenhum dizer isso, e já prevejo pessoas mais sensíveis que eu passando mal logo nos primeiros 15 minutos de cena. Tudo isso “graças” não apenas ao 3D, que constrói sua textura através do planeta Terra e das feições de Sandra Bullock, que faz o papel de Ryan, uma engenheira em missão espacial, mas ao design de som fabuloso, que traz um realismo aterrorizante ao criar um efeito no mínimo “oscarizante” ao contrapor barulho e silêncio, tornando ambos igualmente tensos. Cada detalhe sonoro se torna importante em um ambiente que carece deste.

Mas como nos levar a suportar tudo aquilo por tanto tempo? Primeiramente com a esperança de salvação, que flutua em torno da nossa heroína e se torna cada vez mais escassa, assim como o oxigênio — além da referência religiosa de Cuarón. Em segundo, temos a identificação com a engenheira Ryan, cujo conhecimento para lidar com emergências no espaço não é muito, ou indefinido, para nós. É como se a cada novo desafio nos testassem novamente (ou a ela, tanto faz). E a cada acerto vibrássemos por nós mesmos, como se estivéssemos logo do lado dela, tentando escapar daquele terror solitário.

Parte da sensação angustiante/nauseante existe por causa do uso da câmera, que nos coloca em primeira pessoa a cada novo desafio. A outra parte reside em nós mesmos e à nossa construção de um ambiente sem muitas referências em volta, e portanto, paradoxalmente claustrofóbico. O que faríamos numa situação dessas? Provavelmente a construção desse suspense reside no próprio Cinema e sua capacidade de simular a vontade humana de sobreviver.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2013-10-17 imdb