Guardiões da Galáxia Vol. 2

2017/04/27

Se você gostou de Guardiões da Galáxia é quase certeza que irá apreciar as novas aventuras do time de escanteio da Marvel, que ironicamente são os que mais lembram, com orgulho e um certo sarcasmo, a mídia original de onde vieram: os quadrinhos. Agora, se você é como eu, tenho certeza que achou que nada de bom viria de um filme onde novamente há uma equipe de anti-heróis de mentirinha formados por um guaxinim bancando o “bad ass”, um macho alfa genérico e seu objeto de desejo pintado de verde (porque é uma atriz negra), um brutamontes genérico isento de neurônios no cérebro e papas na língua e uma árvore “falante” (“Eu sou Groot”) dublada por Vin Diesel (que agora é pequena, o que torna Vin Diesel por tabela fofinho). Para você que pensa como eu, acredito que provavelmente você estará errado em julgar prematuramente uma continuação que faz de tudo dessa vez para acertar as pontas soltas desse ensaio bem-humorado dos quadrinhos para as telonas.

Dessa vez o tom meio bonachão ensaiado no primeiro filme está aqui a todo vapor. Graças a um ritmo alucinante que une cenas de ação irreais e um timing cômico orgânico, praticamente todo o filme respira o mundo dos quadrinhos, onde é preciso economizar balões de diálogos e abusar do visual, com cores berrantes que não parecem desse mundo. A não ser que esse mundo esteja desenhado em páginas brilhantes de um almanaque Marvel.

E de uma maneira semelhante aos X-Men celebrando a diversidade, aqui o humor usa e abusa das subversões e confusões quando se mistura duas (ou várias) culturas, povos, raças e planetas da mesma galáxia, onde se na Terra Mary Poppins é uma coisa, em outro ponto da galáxia pode virar outra completamente diferente. É possível sentir que o pedaço de universo onde a Terra se encontra agora é um lugar mais rico graças à diversidade da vida. Mas, diferente de Star Wars, aqui a vida não depende de muitos efeitos visuais, bastando um pouco de tinta (uma maquiagem competente) e atuações impressionantes para o gênero. Atuações essas que são vitais para o desenvolvimento da história, que confia mais na interação entre seus personagens e os problemas universais de convívio entre as pessoas (relação pai/filho, irmãs rivais, duas pessoas com visões de mundo diferentes, o renegado pelo bando e o complexo de inferioridade de um guaxinim).

Vou pegar apenas um exemplo, que sequer é o principal da trama: as irmãs brigadas. Note como a constituição robótica da irmã menos talentosa de acordo com os padrões do seu pai é uma metáfora para quando se nega a humanidade de alguém, tentando trocar as peças supostamente defeituosas por versões artificiais. A forma como o filme resolve o conflito entre as duas, com uma mega-luta entre duas criaturas extremamente poderosas, é de tirar o chapéu. É um espetáculo que está ligado com um drama familiar. Nem George Lucas conseguiu fazer o mesmo com Luke Skywalker, pois ele não tinha alguém com o talento de pessoas como Karen Gillan, que como Nebula conquista pela economia de expressões, mas são expressões de angústia, pesar e remorso bem definidas pela atriz.

A irmã de Gamora, portanto, representa em seu drama aquela briga boba de irmãos quando crianças, mas que gera cicatrizes profundas no ser. De uma forma semelhante, todos os personagens nesse filme possuem problemas pendentes que vão ter que resolver ou aprender a conviver. Assim, Rocket, dublado com uma entonação irritada, mas ao mesmo tempo neutra por Bradley Cooper, está sempre querendo chamar a atenção e possui um complexo de inferioridade que se traduz desde sua estatura ou pouca relevância para a equipe até suas ações menos nobres (como roubar baterias inúteis pelo simples prazer de roubar).

Já o mercenário “red neck” Yondu, interpretado por Michael Rooker (The Walking Dead) com seus dentes tortos, exibe seu sotaque caipira e uma naturalidade em ser líder mesmo após ser renegado pela liga de mercenários comandada por Sylvester Stallone. É de longe a figura mais complexa da trama, pois é acusado injustamente por traficar uma criança, um peso que sentimos no seu olhar por detrás de seu jeito durão. Seu arco, embora com pouco tempo de tela, é quase shakesperiano sem as falas pomposas, mas apenas gestos e expressões nobres. E isso estamos falando de um ser que assobia e faz voar uma flecha que sai matando todos seus inimigos.

O alívio cômico natural – a total ignorância das coisas que temos na Terra – dessa vez é usado de maneira exemplar. Peter Quill (Chris Pratt, o protagonista) pede desculpas a Rocket por chamá-lo de guaxinim (lembrando que ele não é um guaxinim, pois isso só existe na Terra); ele o chama no lugar de “lixo de panda”, o que é muito pior, mas que não tem efeito nenhum até que o próprio Quill explique isso. E o brutamontes Drax (Dave Bautista), o personagem mais apagado, consegue arrancar alguns bons momentos com seu jeito desprovido de sutileza, como ao perguntar a um novo personagem se ele possui órgãos genitais como se estivesse perguntando se ele usa relógio. Esse tipo de humor em Vol. 2 é quase inexistente no original, ou apagado pela sua suposta seriedade, mas aqui é o que de fato constrói uma trama que desenvolve o universo como ele foi idealizado: escrachado para explorar as confusões culturais entre as pessoas, dando um novo olhar em como a subjetividade das experiências pode isolar as pessoas.

E por falar em isolar, o personagem de Kurt Russell, Ego, é o exemplo máximo da obra. Sendo um Celestial, algo semelhante a um deus, podendo criar seu próprio mundo, sua única visão de significado no universo é criar um universo formado por… ele mesmo. Seu isolamento completo de todas as pessoas gera uma anomalia em sua visão de mundo, e é isso que é usado como vilão no filme e ao mesmo tempo como escape humorístico. Seus planos podem ser acusados de convenientemente maquiavélicos, mas é necessário aqui, mais uma vez, colocar o chapéu de Celestial e entender suas motivações, por mais bizarras que estas sejam. A interpretação de Russell, e muito menos suas ações, não deixa muita margem para empatia, o tornando aos poucos o mal desde o início declarado de maneira velada.

E até personagens mal conduzidos, como Teaserface, consegue não apenas ser usado para um momento de humor simples e eficaz a respeito do seu nome (com direito a repeteco mais pra frente), mas também é um exemplo de como a maquiagem consegue ser tão eficaz em “Guardiões”, com sua face meio desfigurada que lembra alguém que já passou por muita violência, construindo um mundo absurdamente real em uma fantasia ironicamente mais absurda que todos os filmes da Marvel juntos. Conseguindo tanto referenciar o mundo dos quadrinhos com cenários deslumbrantes e enquadramentos cafonas, em câmera lenta e com seus personagens soando desnecessariamente imponentes com uma excelente trilha sonora dos anos 80 (terráqueo), a fotografia com cores exageradas está aí justamente para servir a esse propósito, e se transforma em algo tão lindo de se ver como significativo em seu tema. E me surpreendeu que o 3D do filme, apesar de ser prejudicado nas cenas de ação frenética (felizmente poucas), consegue dar um ar de imersão interessante, pois ele também serve como uma maneira de utilizar a mídia cinematográfica em algo mais “comics”.

Guardiões Vol. 2 contém em seu núcleo de roteiro e direção de James Gunn (do primeiro Guardiões, mas principalmente do excelente e desconhecido “Super”) um mundo ainda a ser explorado em inúmeras continuações. Ele não tem medo de expor um pouco de violência, nem de matar alguns personagens pelo motivo dramático. Porém, principalmente, ele não tem medo do ridículo, pois entende que este universo é o lugar ideal para explorar esse lado B das produções de super-heróis sem perder a produção classe A. E, assim como Deadpool, comprova que o universo Marveliano merece cada vez mais menos seriedade e mais trilhas sonoras saudosistas. É quase como voltar a ser criança durante o tempo de projeção.

★★★★★ Guardians of the Galaxy Vol. 2. USA, 2017. Direction: James Gunn. Script: James Gunn. Dan Abnett. Andy Lanning. Steve Englehart. Steve Gan. Jim Starlin. Stan Lee. Larry Lieber. Jack Kirby. Cast: Chris Pratt (Peter Quill / Star-Lord). Zoe Saldana (Gamora). Dave Bautista (Drax). Vin Diesel (Baby Groot). Bradley Cooper (Rocket). Michael Rooker (Yondu). Karen Gillan (Nebula). Pom Klementieff (Mantis). Sylvester Stallone (Stakar Ogord). Kurt Russell (Ego). Edition: Fred Raskin. Craig Wood. Cinematography: Henry Braham. Soundtrack: Tyler Bates. Runtime: 136. Ratio: 1.90 : 1. Gender: Action. Release: 27 April 2017. Category: movies Tags: cinema

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