Guardiões da Galáxia

Me lembro que Guardiões da Galáxia foi o trailer mais interessante desses filmes de super-heróis com seus pseudo-dramas fantásticos e seu atual modelo engessado de vários heróis para um grande vilão (Vingadores, Capitão América 2, X-Men… não, esse é legal). Porém, por algum motivo, acabei não assistindo este filme no cinema. Paciência. Agora surgiu uma oportunidade durante um voo e lá vou eu apertar o play para mais uma aventura impossível com personagens irrelevantes e explosões digitais. Felizmente a minúscula tela em frente à minha poltrona me protegia de sangrar demais pelos meus olhos.

Porém, mesmo nessas condições onde a falta de atenção pode fazer um filme medíocre passar como “bonzinho”, tenho algo a confessar para vocês, fãs de gibis repaginados em película: está cada vez mais difícil assistir essas produções. Comecei a refletir sobre isso aos vinte minutos de filme, o que é um recorde. Mas, como todo bom cinéfilo e otimista inveterado, continuei de boa fé. É o famoso “vai que melhora”.

A história envolve uma galáxia muito, muito distante que sonhava em ser Star Wars. Poderia ser? Acho que não. Considerando que nessa imensidão de planetas o que mais diferencia as espécies de vida inteligente é a sua cor de pele pintada, acredito que até para Star Wars essa galáxia esteja sonhando alto demais. Porém, tirando alguns detalhes feitos para dourar a pílula de fórmulas mágicas para um filme de sucesso, esse é de fato o resumo da ópera: peles pintadas em um fundo pintado que será preenchido com muito computador gerando a velha ação desenfreada que já conhecemos.

O elenco de figuras principais gira em torno de um quarteto – desconsiderando a árvore falante que imita o Vin Diesel – de “heróis” cuja descrição detalhada farei abaixo, o que me libera de focar mais ainda no seu fiapo de história – esse apanhado de falas e situações manjadas que já conheço demais aos vinte minutos de filme e já desconsidero pacas.

Primeiro (claro!) temos o “homem humano branco galã macho-alfa portanto líder natural” (Chris Pratt), um coletor de itens cobiçados no mercado negro e um amante muita sacana e sujo, mas essa parte você vai ter que confiar no que ele diz porque esse é um filme família (sexo não existe porque ninguém casou e mortes só de longe e de perfil). Além do mais, acredito que ninguém dá a mínima para o personagem de Chris Platt, que não é carismático como o papel exige e se resume em repetir as falas de um péssimo roteiro.

Nesse roteiro ele, um coletor muito maroto, encontra uma bola de metal aparentemente valiosa e cujo objetivo ele desconhece (mas como todos nós já temos a cartilha da Marvel nas nossas cabeças é fácil deduzir que no mínimo essa bolinha deve definir o destino do universo). Antes disso o filme começa com esse rapaz quando garoto na Terra envolvendo uma cena triste com a mãe (que obviamente morre) e uma coletânea de músicas dos anos 80 que serão usadas como pano de fundo para uma imensidão de tiradas sem graça ao longo da história, sem contar que, provavelmente, como começou com o tema musical, é lógico que termine do mesmo modo para gerar uma mensagem positiva, esquecer um pouco as bobagens vistas um pouco antes e nos deixe empolgados para ver a continuação de uma nova franquia.

Porém, vamos adiante nesses personagens tão “fascinantes”.

Em segundo no grupo – eternamente em segundo – temos a “mulher negra (ops, verde) que se faz de durona como a viúva negra mas que no fundo quer um macho-alfa para seguir e ser seu mestre” (Zoe Saldana). Sério, depois de tudo isso sua visão sobre Quarteto Fantástico até vai ficar um pouco melhor. Ela também está atrás da bola (de metal) porque o pai dela é um tirano de uma raça que briga com outra por milênios e é claro que isso é uma metáfora Israel/Palestina, mas ninguém vai dar a mínima porque, no fundo, quem se importa com essa história?

O terceiro membro da equipe formada de maneira tão orgânica que dá vontade de se matar é um guaxinim que evita ser chamado assim e é considerado uma aberração, mas pode ser também um alívio cômico e a dose de adrenalina que estava faltando. Infelizmente, nenhuma dessas funções acumuladas funciona muito bem, o que o torna no máximo um bicho engraçadinho vítima de chacotas, embora seja o criador de um plano maluco que não faz o menor sentido, mas que aparentemente dá certo porque… porque… o roteiro diz assim.

Por último, e dessa vez o menos importante, temos um presidiário que leu muito, não entende metáforas e cujo pai tirano de alguém matou sua família. Todos eles possuem um motivo ou outro para enganar os outros, mas por serem todos losers resolvem lutar juntos por um bem maior, bem maior esse invisível para qualquer um com bom senso e que tente enxergar ética nesse grupo (exceto a regra de ouro já citada: esse é um filme família).

Concluindo, filme-família e filme-da-Marvel são atualmente quase sinônimos, cujo significado prático indica que não existirão grandes desafios, ninguém vai sofrer, todos vão aprender algo mais nobre e talvez até dê tempo de dar uma última risada nos créditos finais com uma árvore dançante. O mais triste disso é que essa é a melhor piada do filme.

Atualização (2017):

Na minha segunda revisita, após ver Guardiões 2, fica claro que James Gunn deve ter trabalhado com um bom orçamento, mas ainda limitado para oferecer todos os mundos ricamente ilustrados na continuação. Além disso, não estava muito claro como fazer o início do relacionamento entre todos esses seres díspares, embora ele estivesse certo de como a interação funcionaria (tanto que funciona, e muito bem, em Vol. 2). E é preciso citar que apesar dos personagens no original terem poucas chances de desenvolverem algum drama mais palpável, e no segundo filme quase inexistir espaço para drama, é justamente no segundo que o competente elenco consegue se sair melhor.

★★★☆☆ Wanderley Caloni, 2014-12-06. Guardiões da Galáxia. Guardians of the Galaxy (USA, 2014). Dirigido por James Gunn. Escrito por James Gunn, Nicole Perlman, Dan Abnett, Andy Lanning. Com Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Lee Pace, Michael Rooker, Karen Gillan, Djimon Hounsou. IMDB.