Hancock

Imagine que existe um super-herói que não gosta que lhe chamem de “asshole” (idiota na legenda brasileira, mas em inglês um xingamento que remete ao orifício anal). A maneira mais comum dele ameaçar quem lhe incomoda é enfiar a cabeça de um no orifício anal do outro. Achou engraçado? Se sim, esse é um filme de ação que você não pode perder. Se não, então talvez seja melhor assistir um filme da Marvel menos pretencioso (já viu Guardiões da Galáxia?).

O que poderia muito bem ser um projeto de Adam Sandler (desconfio que ele esteja envolvido de alguma forma) acaba ganhando alguém com um ego maior ainda: Will Smith. Fala sério: você já imaginava que isso iria acontecer, mais cedo ou mais tarde. Smith, acostumado a papéis em que ele se sacrifica pelos outros e possui uma culpa incomensurável (Sete Vidas), agora em sua versão com o sub-gênero mais popular atualmente.

Um herói desajustado que vive bebendo, combate o crime e salva pessoas quase como um efeito da inércia, de tantas pessoas pedirem por isso, Hancock é odiado pela população de Los Angeles, pois suas atuações quase sempre custam muito caro à cidade e aos cofres públicos. Ao salvar uma pessoa presa dentro de um carro no trilho do trem, ele simplesmente vira o carro em cima de outro, parando o trem no processo e descarrilhando todos os vagões. Incompetente? Nem tanto. Parece mais o desleixo de quem não se importa.

Quem também parece que não se importa, agindo na inércia de sua atuação todo o tempo, é Will Smith. Fazendo sempre a mesma expressão de quem anda por outro mundo desiludido (e continua com a mesma expressão mesmo depois que o “arco” de seu personagem tenha concluído), Smith não parece interessado no projeto que lhe dá super-poderes. Talvez porque ele já acredite possuir poderes na vida real, o de, assim como Adam Sandler, lotar as salas de cinema onde passam seus filmes mais desinteressantes (e nem estou nem pensando em As Loucas Aventuras de James West, que chega a ser divertido de tão ruim).

A boa notícia do filme parece ser a presença de Charlize Theron, que comanda uma reviravolta já prevista desde o primeiro momento em que aparece em cena. Sua personagem parece ser a única que possui um fiapo de história para envolver o espectador, já que seu marido no filme, Jason Bateman, faz o papel mais inglório em filme de super-heróis: o do herói do cotidiano, cidadão comum, que tenta vender a ideia para as empresas de que se derem as coisas de graça para os que mais necessitam farão publicidade positiva para seus clientes, salvando o mundo. Awww…

Com um roteiro padrão do sub-gênero de filme de herói (de um tal Vincent Ngo e… Vince Gilligan??), que parece estar de fato criando um filme de origem, com vilão e tudo mais, o diretor Peter Berg se esquece da própria irrelevância do projeto e filma sempre com a câmera na mão um filme que é basicamente uma comédia, dando a impressão que não entendeu a proposta, criando um ar documental em cenas que não possuem qualquer ar realista (ainda mais com os sofríveis efeitos digitais).

Tendo talvez a gota d’água em uma ou duas referências nada sutis a Superman (sim, uma delas é a música-tema), Hancock apenas não afunda ainda mais por ser curto, tornando toda a experiência rápida demais para que o “épico” se concretize. Hancock salva o dia mais uma vez. Will Smith, não.

★★☆☆☆ Wanderley Caloni, 2016-01-22 imdb