The Handmaid's Tale (O Conto da Aia): feminismo de verdade e uma distopia sendo desconstruída

Esta série da Hulu pode ser vista como uma mini-aula de história e sociologia “a céus abertos”. Começamos vendo uma família fugindo na floresta. Um pai, uma mãe e uma garota. Eles fogem das forças inexoráveis de um Estado autoritário (isso na prática, se você já assistiu filmes suficientes, quer dizer que a família acaba ali). São momentos fortes que sintetizam o significado do totalitarismo na vida das pessoas, quando o coletivo vale mais do que a própria unidade básica da sociedade: a família.

Corte na cena com avanço rápido no tempo. Estamos com a mesma mãe de família, June, mas ela se veste com panos que remetem a uma época medieval, embora cercada dos mesmos seguranças uniformizados, camburões e rádios-patrulha. Ela é agora membro de uma unidade maior que sequestra o livre-arbítrio dos participantes dessa nova sociedade, onde a função das mulheres é a função que toda mulher carregou por centenas de milhares de anos e que havia apenas se libertado há algumas décadas: parir crianças.

Este é o pano de fundo de uma série que analisa em cada evento atual como a realidade deste mundo funciona e onde flashbacks vão nos informando como o passado foi alterado para chegarmos no ponto onde as casas possuem mulheres que são possuídas com o único objetivo de procriação. Em cada casa a matriarca organiza os rituais, onde cada marido, chamado de Comandante, copula com suas serviçais selecionadas para este fim. Quando vemos pela primeira vez esta cena do começo ao fim, é como se finalmente caíssemos na real e entendêssemos que tudo aquilo é “real”, está acontecendo e, portanto, em uma hipótese bem frouxa, seria possível de acontecer em algum período da história onde as coisas deram muito, muito errado.

Ou talvez estejamos acostumados demais com nosso conceito atual de civilização e direitos humanos. Tão acostumados que ficaremos horrorizados diante desta nova realidade. Os hábitos e costumes desse grupo de pessoas parece osquestrada via mandamentos religiosos (há frases de cumprimento que remetem a esta origem) em uma hierarquia que provavelmente será revelada aos poucos. Há algumas cenas de violência e cadáveres sendo expostos, incluindo uma sequência patética de um homem sendo agredido por uma massa de mulheres furiosas. Mas nada se compara a duas mulheres de mãos dadas no fundo de um furgão indo de encontro para a sentença de morte de uma delas. A cena é filmada em apenas uma tomada e está no episódio 3 da primeira temporada. Os três primeiros episódios dessa série são dirigidas por uma mulher, Reed Morano, mas Morano apenas consegue se soltar das amarras de um roteiro burocrático completamente na segunda metade do último destas primeiras três horas. E é tão impactante que é como se conhecêssemos essas personagens anônimas. Mas não é verdade. A história desta série, impregnada talvez pela cultura retratada, está mais preocupada com os eventos do que com as pessoas. Incluindo as mulheres.

E por falar nelas, esta é uma história dirigida e escrita primordialmente por mulheres baseadas no romance de uma mulher, o que faz todo sentido. Ela tenta explorar um pouco do processo reverso do feminismo em conquistar direitos, pois esses direitos vão aos poucos sendo perdidos. No final, o que resta, é apenas o que as mulheres sempre fizeram durante toda a História: observar e tentar mexer os pauzinhos onde fosse possível. Mas tudo é muito, muito meticuloso nesse mundo, e a paranoia parece ser um estado de espírito necessário para que tudo funcione a cada novo dia.

A produção da série é primorosa, mesmo que simplista. Estamos em um futuro apocalíptico onde a fertilidade humana chega a níveis assombrosamente baixos. Uma gravidez, além de rara, gera aberrações genéticas para um bebê saudável. Esse provavelmente foi o estopim para revoltas sociais que culminaram em um controle praticamente absoluto da vida da mulher e dos homens em prol da procriação. E para quem achava que a Bíblia estava fora de moda, bom, ela está de volta ao jogo com tudo. Pelo menos na parte que interessa (crescei-vos e multiplicai-vos!).

A fotografia de Handmaid’s nos oferece alguns conceitos díspares, assim como sua trilha sonora, como ao trazer inquietação em suas notas distoantes, além de uma inquietante música animada que surge na cena final e que ainda me causa espanto, pois nada na música reflete o que vimos no episódio (ainda não consigo interpretar o motivo dessa escolha). A fotografia faz o mesmo jogando luz e sombra em diferentes aspectos. O lugar mais iluminado é a calçada que contorna um rio, mas neste rio são pendurados os corpos dos sentenciados à morte (a execução é por enforcamento). O lugar mais escuro é dentro das casas, e parece que ninguém está podendo ligar a luz. Há uma crise no contorno de cada decisão técnica por trás da série, mas note como o que ocorre dentro das casas, apesar de poder estar sendo vigiado, tem um pequeno nível de privacidade. E um inocente jogo de palavras irá revelar como toda a realidade é interpretada por expectativas de nossas mentes, condicionadas já aos valores e hábitos da sociedade.

A protagonista, June Osborne, é encarnada por Elisabeth Moss, que parece usar seus longos e curvos lábios como oferenda em troca de viver um pouco mais, ainda que a única atividade prazeirosa de sua vida hoje seja lembrar de seu passado e torcer para resgatar sua filha desta loucura. Moss fez a esposa do lutador de Punhos de Sangue, que deu origem a Rocky - Um Lutador, e ela consegue ser feminina ainda que sob constante ataque. Aliás, mais do que isso: ser sexy sem ser vulgar. Esse meu comentário poderia soar extremamente machista (não que eu ligue), não fosse o caso de já estarmos em uma sociedade patriarcal aparentemente no nível mais hard possível (sem trocadilhos).

Osborne, porém, pouco pode fazer, pois sua protagonista é apenas nossa guia para este mundo, fora o roteiro que incha para dar lugar a dez episódios em sua primeira temporada. O grande trunfo do streaming é fazer o espectador ficar mais tempo assistindo, e quando mais tempo de duração melhor para eles. Quem perde é a arte. Há ideias frescas que vieram da adaptação do romance de Margaret Atwood que remetem diretamente ao que as feministas acham do nosso mundo contemporâneo (e elas geralmente se referem ao mundo ocidental), e por mais que elas neguem a realidade e problematizem até o comportamento biológico do homem, o fato é que inadvertidamente The Handmaid’s Tale consegue explorar muito bem o papel da mulher antes dos direitos humanos. Então, não, esta não é uma série feminazi, mas um estudo interessantíssimo sobre como nossos costumes é que regem nossos valores e comportamentos. Ele pode ser aterrorizante para mentes fracas, ou fascinante para quem entende que seres humanos podem ser horríveis dados os incentivos “corretos” (vide comunismo, etc). E o pior de tudo é que para quem nasce em um mundo desses tudo soa normal. A grande questão da série é o que acontece quando tudo muda muito rapidamente durante a mesma geração. E este é um assunto interessante a ponto de valer a pena assistir seus inchados episódios.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2018-04-15. Handmaid's Tale. EUA, 2017. Criado por Bruce Miller. Dirigido por Mike Barker, Kari Skogland, Reed Morano, Kate Dennis, Floria Sigismondi. Com Elisabeth Moss, Yvonne Strahovski, Max Minghella. imdb