Hardcore: Missão Extrema

Este não é um vídeogame, mas um filme que utiliza completamente a estética dos jogos de tiro em primeira pessoa. Ele tem uma narrativa coesa, e ainda que não tão bem articulada, qual filme de ação você conhece que consegue ser tão realista a ponto de enxergarmos toda a ação do ponto de vista do mocinho? Pior: que filme de ação hoje em dia consegue te entregar todo o pacote 18+, com direito a sangue, esquartejamento, esmagamento, esfaqueamento e outros “mentos” por aí, e não aquelas brincadeiras de criança da Marvel?

Além disso, apesar da premissa simples (mocinho se vê em apuros e tem que sair dele) há várias ideias interessantes por trás de “Hardcore Henry”, que piscam para os gamers, mas que consegue extrapolar isso para a sétima arte. As múltiplas vidas de seu amigo Jimmy é apenas a mais óbvio. O que dizer do vilão, um ser que consegue controlar através de sua mão objetos e pessoas, fazendo-os flutuar? E de quem é a brilhante ideia de utilizar memórias de jogos… quer dizer, vidas passadas – ou implantadas – para trazer motivação por trás dos ciborgues construídos em cima de seres humanos, senão a de um “gamer” (que, no caso, é justamente o vilão do filme por manipular seus “soldados”)?

Além disso, há longas sequências de ação, com cortes que não incomodam. O filme começa meio desajeitado, mas aos poucos vamos aprendendo essa dinâmica. Há um tom futurista, mas não muito. A bio-engenharia é o ponto mais interessante desse mundo. A fotografia consegue às vezes manter a coerência de iluminação mesmo entre dois cenários extremamente distintos (como um corredor mal iluminado e uma sala com computadores e uma grande janela). A edição está, como em apenas uma longa sequência, na elaboração dos objetos e atores em cena.

E, para o gamer, é claro que há uma “recompensa”. Imagine qualquer fase de seu game favorito, e provavelmente ela estará no filme. Há uso de quase todo tipo de arma, lutas corpo a corpo, estratégia de guerra, explosões, granadas, cenas aéreas. É um filme, acima de tudo, de sensações. Há um roteiro – escrito pelo próprio diretor, Ilya Naishuller, que ficou famoso após seu excelente curta ganhar 30 milhões de visualizações no YouTube – mas ele não precisa ir muito além. O humor utilizado na figura de Jimmy é mais que o suficiente. O vilão, infelizmente, é meio unidimensional. Mas, mais uma vez… estamos acostumados com isso, não?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2016-08-16 imdb