Heleno

Jan 20, 2013

Imagens

Nada mais apropriado às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil – a primeira foi em 1950, para quem não se lembra – para revermos a biografia de um jogador de futebol totalmente esquecido daquela época e de quebra entendermos um pouco como o processo de modernização do esporte retirou todo o romantismo de uma era e transformou os esportistas em meras figurinhas de um álbum prestes a expirar.

E a expiração desse álbum está cada vez mais rápida: jogadores migram de clube para clube, e os próprios clubes começam a passar de mão em mão sem qualquer vínculo à sua história e tradição. O que fica para trás – mas isso é um mero detalhe – é a vontade de jogar. O futebol perde-se no meio de tantas cifras, incalculáveis para nós, simples mortais.

Tudo isso bate de frente com a visão que o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) tenta dar para o ídolo Heleno de Freitas, ajudado pela fotografia incomparável de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato), que utiliza um preto e branco cheio de contrastre, o que nos remete diretamente tanto para o símbolo do time em que Heleno jogava, o Botafogo do Rio, quanto para todo o romantismo de uma era. Muitas das cenas, principalmente as externas, utilizam essa estilização fingindo as limitações da época.

Heleno, mulherengo inveterado, mas jogador acima de tudo, é interpretado como que numa incorporação quase espiritual por Rodrigo Santoro. O seu overacting controlado aqui serve como uma luva, pois todo o drama e tragédia vividos pelo jogador nunca conseguiriam ser transpostos para a tela sem a ajuda da caracterização de Santoro (e que aqui também produz o filme). Perto do Heleno de Santoso, todos os outros personagens são meros coadjuvantes necessários, o que não é um defeito, mas mais um toque de gênio da dupla Fonseca/Carvalho, que entendem que uma figura ego centrada como Heleno precisa de um filme só para ele.

Curioso constatar que o próprio futebol fica em segundo plano, e nunca sabemos de fato quem foi Heleno jogador. O que sabemos saiu na mídia ou da boca do próprio Heleno. E ambos, é preciso lembrar, antes de 1950 estavam criando deuses do futebol, indestrutíveis e inabaláveis. Até um templo – o Maracanã – acabou sendo construído para os rituais de adoração. A indignação do próprio Heleno de não ter jogado ainda nesse templo ilustra bem a visão que existia na época pré-futebol-arte.

Ao nos mostrar o fim e o ápice de Heleno, acompanhamos apenas sua trajetória em direção ao buraco do esquecimento. Sua lenta descaracterização merece aplausos, principalmente pela sua última frase, seu último pensamento, a respeito de si mesmo, e, por que não, a respeito de todo ídolo honrado do esporte nacional.

Wanderley Caloni, 2013-01-20. Heleno. Heleno (Brazil, 2011). Dirigido por José Henrique Fonseca. Escrito por L.G. Bayão, Felipe Bragança, Fernando Castets, Roberto Ceuninck, José Henrique Fonseca. Com Rodrigo Santoro, Alinne Moraes, Angie Cepeda, Marcelo Adnet, Priscila Assum, Othon Bastos, Billy Blanco Jr., Herson Capri, Erom Cordeiro. IMDB.