Heleno

Nada mais apropriado às vésperas da segunda Copa do Mundo no Brasil – a primeira foi em 1950, para quem não se lembra – para revermos a biografia de um jogador de futebol totalmente esquecido daquela época e de quebra entendermos um pouco como o processo de modernização do esporte retirou todo o romantismo de uma era e transformou os esportistas em meras figurinhas de um álbum prestes a expirar.

E a expiração desse álbum está cada vez mais rápida: jogadores migram de clube para clube, e os próprios clubes começam a passar de mão em mão sem qualquer vínculo à sua história e tradição. O que fica para trás – mas isso é um mero detalhe – é a vontade de jogar. O futebol perde-se no meio de tantas cifras, incalculáveis para nós, simples mortais.

Tudo isso bate de frente com a visão que o diretor José Henrique Fonseca (O Homem do Ano) tenta dar para o ídolo Heleno de Freitas, ajudado pela fotografia incomparável de Walter Carvalho (Central do Brasil, A Febre do Rato), que utiliza um preto e branco cheio de contrastre, o que nos remete diretamente tanto para o símbolo do time em que Heleno jogava, o Botafogo do Rio, quanto para todo o romantismo de uma era. Muitas das cenas, principalmente as externas, utilizam essa estilização fingindo as limitações da época.

Heleno, mulherengo inveterado, mas jogador acima de tudo, é interpretado como que numa incorporação quase espiritual por Rodrigo Santoro. O seu overacting controlado aqui serve como uma luva, pois todo o drama e tragédia vividos pelo jogador nunca conseguiriam ser transpostos para a tela sem a ajuda da caracterização de Santoro (e que aqui também produz o filme). Perto do Heleno de Santoso, todos os outros personagens são meros coadjuvantes necessários, o que não é um defeito, mas mais um toque de gênio da dupla Fonseca/Carvalho, que entendem que uma figura ego centrada como Heleno precisa de um filme só para ele.

Curioso constatar que o próprio futebol fica em segundo plano, e nunca sabemos de fato quem foi Heleno jogador. O que sabemos saiu na mídia ou da boca do próprio Heleno. E ambos, é preciso lembrar, antes de 1950 estavam criando deuses do futebol, indestrutíveis e inabaláveis. Até um templo – o Maracanã – acabou sendo construído para os rituais de adoração. A indignação do próprio Heleno de não ter jogado ainda nesse templo ilustra bem a visão que existia na época pré-futebol-arte.

Ao nos mostrar o fim e o ápice de Heleno, acompanhamos apenas sua trajetória em direção ao buraco do esquecimento. Sua lenta descaracterização merece aplausos, principalmente pela sua última frase, seu último pensamento, a respeito de si mesmo, e, por que não, a respeito de todo ídolo honrado do esporte nacional.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2013-01-20 imdb