Histórias de Amor Que Não Pertencem a Este Mundo

2017/11/11

Eu já me envolvi com uma pessoa como Claudia. Claro que minha Claudia não era “cinematográfica” como Lucia Mascino, mas muito provavelmente ela protestaria nesse momento em que lesse meu texto, contrariada como Claudia estaria. Sim, pessoas assim existe. Claudia disse no filme que era “produção exagerada de ocitocina”. Sabe, a droga do amor e do medo. Sim, porque enquanto esse hormônio aparentemente serve para aumentar a atração sexual (e até comprometimento romântico), ele também é responsável pelo aumento do medo e ansiedade. Em um nível que homens se sentem desconfortáveis do lado de mulheres como Claudia. Eu não diria que a vida real é tão cinematográfica, mas a diretora Francesca Comencini parece querer contar uma história feminista aqui.

E nessa história as mulheres são independentes a ponto de saberem que querem casar e ter filhos com o homem dos seus sonhos. Contraditório? Nem tanto. Se trata de uma reconstrução saudável e esperada após a quebra dos padrões patriarcais dessas décadas, onde todos os papéis são permitidos. Incluindo o clássico papai/mamãe. Mas é claro, como diz Claudia, que as mulheres nunca terão um orgasmo nessa posição.

Apesar de ser uma história dramática, “Histórias de Amor…” trata de algo sério, mas do jeito italiano. Leve e com toques de romance e música pop internacional. Lucia Mascino não cria uma personagem aqui, mas uma representante de todas as mulheres com essa situação. Produtoras ou não de ocitocina em exagero.

Ela monopoliza o filme. Suas falas são divertidas, imprevisíveis e ditas de uma maneira autêntica, que determinam o peso exato de uma situação real, mas ao mesmo tempo permitem a leveza de um relacionamento que não está sendo levado a sério. Não por todos os participantes.

Ou talvez a questão seja a inconstância das emoções. E da linearidade. O detalhe mais fascinante da narrativa criada pelos roteiristas (incluindo a diretora Francesca Comencini) é que ela não é linear, mas subjetiva. Acompanhamos não o desenrolar de personagens, mas de sensações. Existe um fiapo de lógica na cadência de acontecimentos, mas é muito melhor acompanhar as emoções se passando pela cabeça de Claudia.

Flavio e os outros personagens são coadjuvantes de luxo. Claudia é a única personagem aqui, e a despeito de ser um símbolo ela tem presença de tela o suficiente para se deixar marcante. Pelo menos quando está berrando um discurso sobre suas emoções no meio de um gigantesco hall, onde um pai e sua filha pequena ouvem, pasmos. O roteiro não tem necessariamente frases brilhantes, mas pelo menos parecem mais reais do que as vistas em Juno, onde as pessoas são espertas demais para existirem.

Aqui Flavio e Claudia existem. Eles se beijam como um casal normal. Transam como um casal normal. Ou não transam? As memórias de Claudia possuem truques interessantes. Ela acordando atrasada para tentar ligar para um Flavio que desistiu é o começo de um filme que dá voltas em torno das mesmas sensações, e diferente do brilhantismo de um Almodóvar, ainda consegue causar interesse a despeito de ser uma bagunça.

Ou talvez essa bagunça seja planejada. Nunca saberemos. O que sabemos é que a história segue as mesmas emoções de Claudia. Instáveis, intensas e fora de controle. Quando vemos o que o mundo poderia ser, com diferentes casais compartilhando momentos bem diferentes ao estarem juntos, entendemos que o filme flerta com possibilidades que talvez nunca existam. Como Claudia transar… ei, espere. Ela transa no filme, sim. Mas talvez não com Flavio. Sequer com um homem. Viu como a vida é instável a ponto de nunca ser possível prever. Gostaria que minha Claudia algum dia pudesse isso entender.

PS: Uma leitora me recomendou incluir nesta crítica um complemento audio-visual que achei bem pertinente. Apresento a vocês Julieta Venegas - Ilusión, a dúo con Marisa Monte.

Obrigado =)

★★★☆☆ Amori che non sanno stare al mondo. Italy, 2017. Direction: Francesca Comencini. Script: Francesca Comencini. Francesca Manieri. Laura Paolucci. Cast: Lucia Mascino (Claudia). Thomas Trabacchi (Flavio). Valentina Bellè (Nina). Iaia Forte (Mara Semeraro). Carlotta Natoli (Diana). Edition: Ilaria Fraioli. Cinematography: Valerio Azzali. Runtime: 92. Gender: Drama. Category: movies Tags: cabine

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