Historias mínimas

Parece um road movie disfarçado, já que todas as cidadezinhas e pessoas envolvidas vivem à beira da estrada. Estamos no interior da Patagônia, Argentina, terra do vinho e da empanada. Um velho senhor nutre a esperança de poder reaver seu velho cão que fugiu diante de um comportamento condenável de seu dono. Uma jovem e humilde mãe é sorteada em um programa de televisão para concorrer a um multiprocessador de alimentos. Um vendedor detalhista e falastrão tenta entregar o bolo perfeito para o filho de seu interesse amoroso.

Juntos, eles irão cavalgar por pequenas aventuras em direção a Julião, a cidade grande das redondezas. O velho é o pilar onde se constrói a história, mas os outros dois servem de apoio para um projeto que se entitula História Mínimas, um longa de Carlos Sorin que tenta focar na humanidade de seus personagens, mas que os enxerga mais como as paisagens que servem de pano de fundo às suas existências do que seres complexos e multifacetados. Dessa forma, o minimalismo em torno das três histórias acaba se sabotando, colocando uma história interessante sob um enfoque superficial.

É certo que existe um romantismo meio nostálgico daquela realidade longe da civilização. O filme é de 2002, mas a história é mais antiga, deve datar da década de 80, 70 quiçá. Os personagens são simpáticos, e os secundários ainda mais, sempre hospitaleiros em uma região desértica que parece já castigada pela natureza. Em determinados momentos os encontros do velho senhor soam até bíblicos, pelo tom bucólico com que seus recém-amigos o tratam. E quem não trataria bem um velho com uma charmosa bengala à beira da estrada?

Já o vendedor, este é uma figura à parte. Encarnado de maneira moderadamente divertida por Javier Lombardo, Roberto é aquela pessoa que acredita em seu eu prestando mais atenção aos objetos em sua volta (como um terno com o botão errado) do que às pessoas. Aliás, podemos dizer que essas pessoas são auxiliadas por outras que dão muito mais valor à observação do próximo do que elas mesmas, obcecadas por seus pequenos Santo Graal.

Com um ritmo um pouco lento, mas sempre em movimento, Histórias Mínimas é para ir degustando aos pouquinhos, mesmo, sem pressa. O desenrolar da história vai impressionar pela sua visão da natureza humana (que é boa), principalmente em uma época em que o cinismo impera nos grandes centros urbanos.

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-11-01 imdb