Holy Motors

Holy Motors é o refresco que todo cinéfilo pede de vez em quando. Com uma abordagem surrealista, ele permite fazer uma crítica e uma homenagem à nossa sensação de estarmos na realidade enquanto assistimos filmes. Mais do que isso: ele brinca com essa percepção aproveitando o pouco de pé que fincamos nessa realidade no início do filme. A partir daí, ele nos puxa cada vez mais para o inusitado. Porém, não é gratuito. Parece que tudo que está ali é necessário e poderia ter sido contado da maneira convencional, mas seria um resultado aquém do que precisamos. Sim, precisamos de um Holy Motors no Cinema de vez em quando.

Para nos manter com essa parcela do real durante toda a experiência, há mais ou menos uma história: um dia na vida de um ator com idade avançada, mas que ainda precisa realizar o seu trabalho. Ele é levado de limusine branca para todas as locações, e ele próprio se maquia e se transforma para viver seu próximo personagem. Em determinado momento, os resquícios do personagem anterior se misturam com o próximo personagem, mas pode ser que não seja um novo personagem, e apenas um diálogo entre colegas de profissão. É possível permearmos esse traço de realidade em um futuro distópico onde as câmeras são praticamente invisíveis, não há uma equipe de produção em volta do cenário e tudo é feito da maneira mais perfeccionista possível.

E, mesmo assim, o público pede mais. Não é isso o que vivemos no dia-a-dia dos efeitos visuais, da ação desenfreada?

A fotografia se alia perfeitamente aos objetivos do diretor e roteirista Leos Carax (do ótimo Boy Meets Girl). Ela é estilizada por Yves Cape e Caroline Champetier (Homens e Deuses) e leva um tom verde onde é necessário criar uma certa dúvida sobre essa realidade quase virtual onde se passa a história (note o aspecto de cores através da câmera dentro da limusine). A edição de Nelly Quettier parece nunca perder o ritmo, mesmo quando está lidando com sequências completamente diferentes, mesmo se tornando óbvia com o passar do tempo, quando aprendemos o ritmo “personagem feito, próximo papel, pasta no banco”.

Porém, nada disso seria possível sem a total entrega de Denis Lavant, que faz um trabalho que exige fôlego e elasticidade. Ele está cercado de ótimos atores que fazem o trabalho secundário, mas é dele o filme, e sem ele não seria possível atingir tamanho impacto. Seus personagens conseguem nos tirar cada um do ato anterior, parecendo uma cornucópia mágica que cospe atores novos em folha para viver o papel de sua vida.

Por tudo isso Holy Motors é passagem obrigatória dos cinéfilos. É um filme sobre Cinema, para o Cinema e com uma carga crítica que pode ser revisitada várias vezes. Nada que está ali é verdade, e tudo, ao mesmo tempo. Isso é o que torna cada segundo dessa experiência uma revisita ao nosso sistema de suspensão de descrença, nosso pulmão para respirar o ar da Sétima Arte.

★★★★★ Wanderley Caloni, 2014-05-15 imdb