Homem-Aranha no Aranhaverso

Wanderley Caloni, January 12, 2019

Lá vamos nós de novo. Era uma vez um garoto… ou garota… que foi picadx por uma aranha… ou porco… e se transformou em uma japonesa de anime… ou um rapaz do Brooklin. Não, pera. Ah, você entendeu.

“Spider-Man: Into the Spider-Verse” possui uma trama, mas ela se desdobra em diferentes pontos de vistas, diferentes origens com diferentes consequências. Como uma teia de aranha ou como o reflexo da ponte entre dois prédios onde vemos escrito “Vision” (visão) ou como as diferentes texturas, paleta de cores (e p&b), vozes e dimensões de seus personagens. Se trata de uma animação que explora os limites da existência através de um dos heróis mais carismáticos dos quadrinhos, dos desenhos e dos filmes. Peter Parker já teve três versões recentes (últimos 20 anos) apenas no Cinema. Nos quadrinhos, infinitas. Como contextualizar toda essa bagunça de múltiplas edições?

Com o multiverso. E a história é simples: vilão, acelerador de partículas, multiverso. As pistas você vai encontrando na história de origem de Miles Morales, que é a versão do Brooklin (mas ainda Nova Iorque) do Aranha, caracterizado de acordo com sua origem, cultura e relações iniciais. Seu pai é um policial, seu tio um fora-da-lei. Ele estuda em uma escola de elite, mas possui uma veia artística para o grafite. O próprio Morales oscila entre dois mundos, no mesmo universo. E nesse universo Homem-Aranha morreu diante de seus olhos tentando salvá-lo.

A criatividade aparentemente ilimitada dos roteiristas em conduzir uma história que explora as diferentes possibilidade em que heróis traumatizados chegam à tona só rivaliza com a deliciosa direção de arte, que utiliza como camada principal uma textura na animação que não apenas lembra os quadrinhos mais recentes, com as ranhuras transversais, e que combina isso com a mudança de foco sutilmente ao embaçar o fundo, mas que vem carregada com uma bagagem emocional no estilo das HQs. Além disso, balões e quadros começam a aparecer conforme o portal para múltiplos universos se abrem e Morales é picado por uma aranha mutante. As cenas de ação são combinadas com os Bangs e Crashs ao fundo e a saturação de cores típica das explosões. O 3D cinematográrfico é completamente desnecessário quando o filme possui a mais absoluta perfeição em retratar os quadrinhos de quadro a quadro (só que em movimento).

Além disso, a inventividade não para por aí, já que a câmera não tem limites (até por ser uma animação), criando planos horizontais, verticais, diagonais com a mais pura liberdade que apenas o ponto de vista dos universos do Homem-Aranha seriam capazes de utilizar. De repente o Aranha começa a andar pelos tetos e paredes e a câmera acompanha seu ponto de vista. E quando duas versões de Homem-Aranha discutem em diferentes planos os vemos cada um à sua maneira. Momentos de pura adrenalina se traduzem em quadros combinados dessa ação, que é o que veríamos se estivéssemos folheando uma das inúmeras aventuras do Aranha nos quadrinhos.

Além disso, uma trilha sonora moderna, ágil, às vezes pesada, nos conduz ao espírito daquela Nova Iorque caótica com precisão e bom gosto, criando uma atmosfera mais brookliniana, embora não de maneira separatista. Se trata apenas de mais um ponto de vista em um mosaico de emoções que foram criados em décadas de diferentes aventuras de um herói traumatizado. Essa é uma versão. Não a melhor, mas atualmente a mais empolgante. Essa é a forma com que se realiza inclusão quando ela é bem feita, e não como um preenchimento de cotas automático.

Miles Morales é um personagem multidimensional vivendo o drama de ter que assumir a bronca em sua própria versão do multiverso. Isso pesa muito em determinados momentos do longa, que não se priva de utilizar sua censura de 10 anos até o limite do aceitável para pré-adolescentes, criando no processo um drama sério e ao mesmo tempo irreverente, na exata proporção que os fãs dos quadrinhos estão acostumados a acompanhar.

Spider-Verse possui a melhor participação de Stan Lee (póstuma) nos filmes da Marvel, e ganha a melhor homenagem que se poderia ter feito a esse criador de mitos: um filme que não se limita a uma história de origem, mas se expande em direção ao espectador e seu sentido próprio de aranha. Parafraseando Lee: não, não é sobre grandes poderes e grandes responsabilidades. É assim: “Aquela pessoa que ajuda os outros simplesmente porque deveria ou precisa ser feito, e porque é a coisa certa a fazer, é sem dúvida, um super-herói de verdade.”

Esse filme com certeza é um grande abraço de despedida em um dos gênios dos quadrinhos.

Imagens e créditos no IMDB.
Homem-Aranha no Aranhaverso ● Spider-Man: Into the Spider-Verse. EUA, 2018. Escrito por Phil Lord, Rodney Rothman e infinitos personagens de universos paralelos de vários criadores. Dirigido por Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman (três diretores? sério? de universos diferentes?). Com as vozes de Shameik Moore como Miles Morales, Chris Pine como Peter Parker, Hailee Steinfeld como Gwen Stacy, Mahershala Ali como Tio Aaron, Lily Tomlin como Tia May, Kathryn Hahn como Doc Ock. ● Nota: 5/5. Categoria: movies. Publicado em 2019-01-12. Texto escrito por Wanderley Caloni.


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