Homem de Ferro

Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) guarda o primeiro coração nuclear de Tony Stark (Robert Downey Jr.) como prova de que ele tem um coração. Ironicamente, o primeiro Homem de Ferro também prova que a franquia tinha coração e lógica em suas primeiras duas horas, estruturados de uma forma que jamais veríamos novamente nas novas aparições do gênio/bilionário/herói.

Criando uma história convincente no estilo O Senhor das Armas e se aproveitando disso para tornar a fantasia e a aventura mais palatável para um público menos ingênuo, a criação do herói dentro daquela caverna escura a partir de materiais que seriam usados para fabricar um dos mísseis da sua empresa bélica não deixa de ser significativa. Aliás, significados não faltam na primeira aventura do herói, que consegue a proeza de tornar suas próximas e medíocres experiências cinematográficas mais empolgantes (ainda que na verdade não sejam).

Isso acontece porque o roteiro escrito a oito mãos (e mais oito para criar os personagens) consegue amarrar a fantasia com algumas pontas de realidade (o peso de sua armadura ajuda a pousar sem cair) e ainda fazer algumas referências sutis (S.H.I.E.L.D.) e até metafóricas (Jon Favreau, o diretor do filme, é o motorista/guarda-costas de Stark).

O mais curioso é que o filme se perde em alguns momentos justamente no que se tornou o carro-chefe dos filmes da Marvel desde então: mostrar a ação pelo simples prazer de “porque sim”. Como se explica que o vilão vá especificamente atrás de Potts sabendo que há pelo menos meia-dúzia de agentes com ela que muito provavelmente já sabem de todo o esquema montado?

Falar sobre Robert Downey Jr. já é chover no molhado. O ator conseguiu a proeza de trazer dignidade em uma figura que usa vermelho brilhante e que nas horas vagas é um Batman futurista cujo Alfred é uma voz de computador. Consegue convencer em apenas quinze minutos de filme que não há nada pelo qual ele mereça viver, mas a simples constatação desse fato acaba o tornando um ser humano mais ciente de suas capacidades financeiras e intelectuais e como ela pode ser o que ele gostaria de ser, e não um legado (mal) construído pelo sucessor de seu pai.

Homem de Ferro não precisou de muito para se tornar um ícone pop contemporâneo. Uma trilha sonora pesada que faça sentido com o teor da história, referências e pontas facilmente criadas e inseridas de forma inteligente, e pronto: a Marvel pode manter toda sua farofa em um formato palatável até para os cinéfilos mais exigentes. Precisa pedir mais?

★★★★☆ Wanderley Caloni, 2015-07-30. Homem de Ferro. Iron Man (USA, 2008). Dirigido por Jon Favreau. Escrito por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum, Matt Holloway, Stan Lee, Don Heck, Larry Lieber, Jack Kirby. Com Robert Downey Jr., Terrence Howard, Jeff Bridges, Gwyneth Paltrow, Leslie Bibb, Shaun Toub, Faran Tahir, Clark Gregg, Bill Smitrovich. imdb